Quem está se preparando para prestar o vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) teve algumas surpresas ao ver a lista das dez obras que serão exigidas nos dois próximos processos seletivos. O escritor moçambicano Mia Couto é um dos nomes selecionados, em uma lista que inclui ainda outros escritores que não costumam constar da grade curricular do Ensino Médio, como Ana Cristina César e Paulo Lins.
A lista vem confirmar uma tendência que já se insinuava em vestibulares anteriores: a inclusão de autores do pós-modernismo e, no caso dos clássicos, a opção por obras menos ''badaladas'' da literatura. Assim, ao invés de Machado de Assis, o realismo foi representado por uma peça de Artur de Azevedo, e o português Mário de Sá-Carneiro ganhou um espaço que geralmente é reservado a Fernando Pessoa.
''É uma escolha bastante produtiva, principalmente para trabalharmos em sala de aula'', avalia a professora Cláudia Bergamini, que leciona Literatura no Colégio Londrinense. ''A lista passa por todos os momentos da literatura brasileira, do Barroco de Gregório de Matos, o Romantismo com Castro Alves e o Realismo/ Naturalismo com Artur de Azevedo, a segunda fase modernista com Rachel de Queiroz e o pós-modernismo'', analisa.
A professora destaca ainda a abertura grande que a UEL tem dado ao pós-modernismo, que não costumava constar da grade curricular do Ensino Médio. ''O programa em geral termina na terceira fase modernista, mas o aluno não pode sair sem conhecer os pós-modernos. O professor tem que estar antenado e atualizado'', recomenda.
Tratando de uma realidade bem mais próxima do aluno, essas obras podem contribuir para se estabelecer um vínculo maior entre livro e leitor. ''Cidade de Deus, por exemplo, discute a realidade de forma bastante crua. Trata da violência com a qual lidamos todos os dias, trazendo essa discussão para a leitura'', analisa a coordenadora de literatura do departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da UEL, Regina Célia dos Santos Alves.
''Cidade de Deus foi muito noticiado, os alunos se interessaram tanto pela leitura quanto pelo filme. Já a escritora Ana Cristina César traz a problemática do eu moderno'', complementa a professora Cláudia, lembrando que na lista anterior o homossexualismo foi tratado com Caio Fernando Abreu. ''O professor tem que trabalhar esses temas de forma a fazer um elo entre a obra literária e a realidade do aluno'', enfatiza.
Já a escolha de Mia Couto vem atender à exigência do Ministério da Educação de se incluir no conteúdo escolar a história e a cultura africana e afro-brasileira. ''A escolha também está ligada à tradição dos estudos e pesquisas dos professores do departamento da área, bastante envolvidos com a literatura africana e de afrodescendentes. Também é uma forma de expandir a abrangência da literatura de língua portuguesa'', explica Regina, enfatizando ainda a importância do escritor moçambicano na literatura mundial.
Embora pareça ser um número elevado, Cláudia observa que dez livros equivalem a menos de um por mês, e que essa pode ser uma forma de se criar novos leitores habituais. ''Os adolescentes, no momento do vestibular, fazem tudo obrigados, mas a partir daí muitos se transformam em apaixonados por leitura''.


Confira a lista

1- Poesias Selecionadas - Gregório de Matos
2- Espumas Flutuantes - Castro Alves
3- Bom-Crioulo - Adolfo Caminha
4- A Capital Federal - Artur Azevedo
5- A Confissão de Lúcio - Mario de Sá-Carneiro
6- Contos Gauchescos - João Simões Lopes Neto
7- Falso Mar, Falso Mundo - Raquel de Queiroz
8- A Teus Pés - Ana Cristina César
9- Cidade de Deus - Paulo Lins
10- O Outro Pé da Sereia - Mia Couto

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