Acabaram-se as unhas. Você puxa os cabelos tantas vezes por dia que eles começaram a ficar com textura de farelo. O velho fantasma ardente insiste em brincar de globo-da-morte dentro do seu estômago. Meus parabéns, o senhor é um dos mais de 35 mil felizardos que a partir de amanhã pleitearão uma vaga em um dos cursos de graduação da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Na véspera da prova, o candidato não consegue pensar em outra coisa. Tudo parece ter relação com o monstrinho a ser batido via gabarito: família, amigos, namorada, jornais, televisão. Na escola, nem se fala. ''O clima no cursinho está ruim, o pessoal só fala de vestibular, já tem gente de cabeça raspada porque passou em outras faculdades... Por mais que não queira, você acaba meio 'contaminado''', atesta João Henrique Bressan Malavazi, 17 anos.
Ele está mergulhado na rotina de provas há quase dois meses - já prestou os vestibulares das universidades federais do Mato Grosso do Sul (UFMS) e do Paraná (UFPR) e de uma faculdade particular. Agora, tentará vaga no curso de medicina veterinária da UEL pela primeira vez - no ano passado, arriscou o teste como treineiro. Pressão da família? Ele diz que não existe, mas a cobrança de si próprio é implacável.
''Meu irmão estuda engenharia elétrica na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e minha irmã cursa turismo e hotelaria em Camboriú (SC). Eles entraram no primeiro vestibular e não fizeram cursinho, então eu me sinto um pouquinho pressionado. E o meu curso é mais concorrido...'', suspira.
Jéssica Aparecida Ramos Peres, 20 anos, que vai pleitear uma vaga na UEL pela terceira vez - vai tentar economia; nas outras duas vezes, prestou vestibular para educação física -, se diz cansada. ''Meus pais não me pressionam, mas no cursinho só se fala em vestibular. Além disso, o tempo de preparação, um ano, é muito longo, parece que o dia da prova não chega nunca. Estou contando os dias, mas tenho que manter a calma'', explica.
Época de vestibular é tempo de abrir mão de parte da vida. Nas últimas semanas, Jéssica evitou sair com os amigos. Seu dia-a-dia se resume a trabalho (numa empresa de call center) e às apostilas. ''Tenho estudado de três a cinco horas por dia, fora o cursinho''.
Jhoni Rodrigo de Almeida, 19 anos, vai além: diz que quando se ''empolga'', passa até seis horas por dia revisando matérias. Suas fixações são matemática e física - vai tentar engenharia civil. ''No vestibular passado, fui mal nessas matérias. Por isso tenho dado mais atenção às duas este ano'', justifica o estudante, que vai tentar pela terceira vez ingressar na UEL.
''Nem saio mais com os amigos, fico estudando. A família pega um pouco no pé, e no cursinho é aquele clima. Me sinto um pouco pressionado também porque duas primas minhas já se formaram na faculdade e outra está estudando fonoaudiologia. Então, está na minha hora de passar'', brinca Jhoni.
Nos dias de prova, a idéia é remediar a tensão. ''Vou escutar música de manhã'', conta. ''Vou procurar relaxar''. Jhoni e mais de 35 mil pessoas gostariam de acreditar que o verbo ''relaxar'' será fácil de conjugar até a próxima terça-feira.

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