Vertiginosa súmula de Hollywood
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de outubro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Racismo mal disfarçado, imaculada garotinha branca em perigo, justiceiros calados e solitários que tomam a lei nas próprias mãos. Estes elementos, entre outros velados indicadores ao longo do filme, dão bem a medida das fontes visitadas por ''Chamas da Vingança'', o thriller de Tony Scott a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2). Para além da superfície de ação frenética, às vezes quase histérica, é possível ir de encontro a algumas das raízes mais entranhadas da marca hollywoodiana, como os ancestrais e arcaicos melodramas raciais que remontam ao cinema pioneiro de Griffith do início do século passado, até exposições mais recentes sobre violência urbana, à moda de Don Siegel ou de seu discípulo mais talentoso, Clint Eastwood, passando pela clássica mitologia dos westerns de Ford, Hawks ou Zinneman.
Essas, digamos, generalidades ideológicas mais à direita embasam a missão quase ''sagrada'' do personagem vivido com requintes de etilizado fanatismo bíblico por Denzel Washington, alguém que a Casa Branca teria sempre em alta conta neste tempo em que Bush promove aleatoriamente a lei de talião, quase com o mesmo arsenal de artifícios utilizados por ''Man on Fire''. Numa espantosa Cidade do México, o intratável e alcoolizado ex-marine Creazy (Washington) é contratado como guarda-costas de Lupita, a garotinha filha única do casal Ramos (Marc Anthony e Rhada Mitchell).
A menina é sequestrada por uma rede dirigida pela Voz (Roberto Sosa), e aí o guardião vira bicho abstêmio e messiânico, brandindo Bíblia e pistola, com prioridade para esta última. A justificativa para o massacre: ''O perdão é uma questão entre eles (os maus) e Deus; meu trabalho é promover este encontro''.
A partir deste momento, ele ressuscita e reencarna aquele furibundo desejo de matar de Charles Bronson e parte com tudo para recuperar a pequena sequestrada alguém afirma que ''ele pode fazer mais justiça em três dias do que os jurados em dez anos''. Intimado a acompanhar esta trajetória, o espectador fica à mercê do acerto de contas escrito pelo premiado roteirista Brian Helgeland, aqui longe do brilho demonstrado em ''Sobre Meninos e Lobos''.
A questão é medir o grau de tolerância diante do estilo de Tony Scott. Há sempre alguma coisa compulsivamente visível no cinema deste britânico, irmão caçula e, nunca é demais repetir, bem menos talentoso de Ridley ''Blade Runner'' Scott. A habilidade é inegável quando ele pega de jeito compulsões mais primitivas da platéia: a vingança, a violência e a urgente velocidade, arranjadas em pacote narrativo no qual sobressaem o frenesi de uma câmera de videoclipe (empunhada pelo uruguaio-brasileiro César Charlone) e o da montagem (não há plano que dure além de dez segundos).
Para desfrutar obrigatoriamente, abstraindo deste todo incômodo: o admirável profissionalismo de Denzel Washington, encantador quando carinhosamente contracena com a garotinha Dakota Fanning, e logo mais adiante travestido como o sádico promotor do olho por olho, dente por dente.


