O filme narra as aventuras de um adolescente que vive num futuro nada agradável e passa o tempo praticando Oasis, um jogo de realidade virtual
O filme narra as aventuras de um adolescente que vive num futuro nada agradável e passa o tempo praticando Oasis, um jogo de realidade virtual | Foto: Reprodução



Apesar de que não chega a ter a mesma eficácia de seus grandes clássicos das décadas de 1970, 80 e 90, o que é certo, certíssimo, é que "Real Player One – Jogador nº 1" é o melhor filme de entretenimento puro (e duro) que o realizador realizou em seus últimos 20 anos de carreira – algo que parecia inimaginável para alguém supostamente acomodado e disposto apenas a manter prestígio na indústria através de filmes mais graves (alguns bons, outros mais ou menos olvidáveis). Mas o que é mesmo assombroso é que, por trás da câmera, Steven Spielberg se multiplica e faz desse entretenimento em lançamento no circuito mundial mais um fenômeno da narrativa cinematográfica ao contar com extrema competência e alegria uma ficção de aventuras, pura e simplesmente. Mais que nunca jovem aos 71, ele é exemplo e desafio para quem pretende trabalhar um mix de ação, suspense, humor e aventura em estado puro. E ainda oferecer, de quebra, um olhar reflexivo (para quem sabe prender a respiração enquanto mergulha...) sobre questões hoje cruciais como mundo real e mundo virtual.
Com "Jogador nº 1", o diretor fez seu filme mais acessível, comercial e divertido – no sentido massivo do termo – desde "Jurassic Park" (1993). Ao adaptar a prestigiosa novela de Ernest Cline (críticos literários juram e apostam que o texto foi pensado e produzido especialmente para ele, Spielberg), o diretor de fato encontrou um esquema que lhe permitiu tanto voltar ao "entretenimento popular" que havia abandonado como retomar certos temas clássicos de sua carreira. Além disso, aproveitou para mais uma reflexão: aquela sobre o seu próprio cinema, o espaço que o escapismo tem no mundo diante de trabalhos mais sérios, realistas e/ou diretamente políticos que ele, Spielberg, vem realizando nos últimos anos. Ou como obter uma química que combine as duas coisas.
O filme narra aventuras de um adolescente que vive num futuro nada agradável, aquilo que se convencionou chamar de distopia. Assim, como ele, as pessoas passam o tempo praticando Oasis, um jogo de realidade virtual para fugir da dura realidade ao redor através de uma fantasia virtualmente restauradora. Wade (Tye Sheridan), personagem da velha escola spielberguiana, não tem uma figura paterna a quem se apegar, mora com família disfuncional e tenta se tornar herói em um mundo de fantasia.
Esta a trama real. Na virtual, Wade é Parcival (na lenda, um cavaleiro da corte do Rei Artur), um avatar que evoca a o personagem de Michael J. Fox em "De Volta para o Futuro" a bordo de seu bólido DeLorean.
Oasis, criado por James Hallyday, um excêntrico fanático pela cultura pop da década de 80, já falecido, funciona como diversão e fuga; o jogo propõe um desafio de resolução muito complicada: encontrar três chaves mágicas que permitirão ao vencedor tornar-se dono de Oásis. Parcival, além de suas habilidades como gamer, reúne grande conhecimento de cultura pop e ideias básicas de psicologia para entender a motivação pessoal de Hallyday – coisas como amores perdidos e disputa entre sócios. O filme está organizado com a estrutura de um videogame e consiste, basicamente, em obter as chaves para chegar ao destino. Em cada desafio há um coquetel pop, não apenas dos anos 80: de King Kong a Godzilla, dos dinossauros de Jurassic Park até uma ótima sequência de "O Iluminado", passando por muitos clássicos videogames daqueles tempos e centenas de "participações especiais". Todas virtuais, evidentemente. E se a tudo isso se adiciona uma trilha sonora de clássicos (Van Halen, Hall & Oates ou Twisted Sister, entre outros, um universo virtual se torna um combo retrofuturista emoldurado por uma hiper complexa arquitetura visual organizada por Spielberg e sua equipe técnica.
Ready Player nº 1 consegue manter o ritmo trepidante das superproduções atuais com uma enorme vantagem: é muito mais organizado narrativamente, mais claro em termos de trama e de disposição visual – mise en scene é para quem sabe... A nostalgia está incluída no produto final, é parte orgânica de sua matriz, seu tema e seu universo. E a melhor parte, que Spielberg deixa no ar como última reflexão: o que é o mais importante em um jogo, divertir-se com amigos fieis ou vencer um ocasional adversário? É disso também que trata este filme de rara presteza narrativa, que põe em primeiro plano o desenvolvimento dos personagens, a justiça como bem supremo e ainda adverte sobre os perigos da obsessão atual pela tecnologia e pelo uso abusivo das redes sociais para fingir ser alguém que não somos.

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