Curitiba - Eles não frequentam os elegantes encontros da Academia Paranaense de Letras. Também não ficam beijando a mão dos órgãos públicos para terem seus livros de poemas publicados. Apesar do preço da independência ser alto, os integrantes do movimento ‘‘Oss’’ estão de bem com a vida.
A característica é a irreverência dos seus integrantes. Inspirados em poetas como Paulo Leminski, Cruz e Souza, Augusto dos Anjos e Dalton Trevisan (eles consideram o contista um poeta) o ‘‘Oss’’ encontra em Curitiba o seu referencial de vida e de idéias. Para o grupo qualquer detalhe é motivo para escrever e subverter.
Os líderes são o publicitário Thadeu Wojciechowski e o bancário Sérgio Viralobos, que evitam badalação. Tanto que se recusaram a participar de uma sessão de fotos. Importante para eles são as palavras. O resto é apenas complemento da vida dupla que levam.
Considerados como a força motriz do movimento, e se preparando para lançar mais uma obra, ‘‘Não temos nada a perder’’, ainda sem editora, ousaram traduzir grandes nomes da literatura mundial. Entre eles, Goethe; Dante Alighieri; Arthur Rimbaud, William Shakespeare, Adam Mickiewicz, Charles Baudelaire e Edgard Allan Poe.
Os poetas convocaram os amigos para orgias poéticas. E passaram a fazer poemas não apenas em solo, mas também em grupo. Imediatamente aderiram ao ‘‘Oss’’ Edilson del Grossi e os irmãos Marcos e Roberto Prado. Posteriormente o cartunista Solda se aproximou do grupo. Logo chegaram Ubiratan Gonçalves de Oliveira, Márcio Cobaia, Plínio Gonzaga, Rodrigo Barros Homem Del Rei e Walmor Góes, todos poetas bissextos.
Viralobos e Wojciechowski são dois subversivos de talento. Na tradução de Fausto, de Goethe, eles abandonaram a linguagem rústica e antiquada para reciclar a peça teatral. A peça foi traduzida para o português na primeira metade do século passado. Uma conversa de Fausto com Mefistófeles é o exemplo da antecipação da ‘‘Tragédia’’. Veja a seguir.
Eta, vida de merda de cachorro!
Filosofia, direito, medicina,
até com teologia gastei o meu latim
Pra que saber a anatomia do piolho,
a composição química da estricnina,
se tudo labirinta dentro de mim?
Mestres, padres, escritores, nada mais absorvo,
crenças, receios, escrúpulos, desceram pela latrina.
Já não sinalizo a cruz contra o coisa ruim,
jamais tive um riso que não nascesse morto.
Todos sabem nada, ainda menos quem ensina,
por isso e pela magia deixei de ser um Dr. chinfrim.
Hoje conheço da verdade, o invólucro e seu forro,
tecidos pela força demoníaca-divina,
mas a palavra humana não descostura esse interim.
Só, tu, lua, foste clara testemunha do meu esforço,
pudera brotar como a luz que sai de tua mina,
mas aqui estou, pregado à cruz da minha vida de festim
Troco minha ciência eterna por um momentâneo prazer
vendo meus livros e aparelhos toscos a preço de doador.
No final do inventário de meus trastes me resta uma taça,
cuja cristalina pele me chama ao derradeiro dever.
Tu, que conténs o veneno, tão oportuno ao meu humor,
da morte bem que podes me conceder a graça
Meu olhar deságua em tua boca ao te ver
e como por encanto, dentro de mim, se apaga a dor.
Vejo um estranho carro em chamas à minha caça,
essa parafernália importada é para me subir ou descer?
Ó vida, ó céu, ó dia, ó azar de ser doutor!
Sendo verme não posso ver-me com Deus na celestial praça.
Tomo nas mãos a taça que há de me dar de beber.
Nos bons tempos, de boca em boca, teu alcóolico teor
mostrou, a mim e meus convivas, orgias pela vidraça.
Enfim sós! A ninguém mais te posso oferecer,
não é para qualquer paladar saber da morte o sabor.
No último brinde, o último pedido: que a luz se desfaça!
Em ‘‘Sobre o túmulo de Bilac lendo A Tumba de Edgar Poe, de Mallarm钒 um poema solo, Wojciechowski mostra o humor corrosivo. O poeta descasca a trama com um ritmo de perder o fôlego. Sem encontrar um ponto de fuga ou um estratagema, a vazante desemboca na força da palavra Augusto, uma referência direta a uma das maiores influências do poeta: Augusto dos Anjos.
Antes de me deter, consigo
Ao alcance de algo em curso
Mudar o trajeto do perigo
Por força maior ao impulso
Como se, hábil, o ter pulso
Tirasse de mim novo destino
E outro me pegasse de susto:
Resposta a um poema genuíno
Fora esse estratagema justo
Me sinto inclinado ao ritmo,
Onde a rima a qualquer custo
Geme ecos do ulterior signo.
Ao final da obra, no mínimo,
Não se veja esforço do músculo.
Salvo o coração, puro estímulo,
Salte sobre mim símbolo augusto..
Já em ‘‘é tudo ou nada’’, outro poema sem parceiros, Wojciwchowski brinca com as palavras para entender o motivo que impulsiona o ser humano a fechar os olhos para sempre. A sombra que o persegue acaba revelando uma verdade que se apaga através do silêncio da história. Ele não nos oferece soluções, mostra o terror que nos consome no bonde da morte.
Essa vida é de morte a esmo.
Quando você menos espera,
Terá passado pra outra esfera
E nunca mais será o mesmo.
Do que você era, nem sombra,
É como se evaporasse no ar,
Apenas sua lápide a indicar
A presença que agora assombra
Mas, em mais, ou menos um século,
Não restará de você nem o túmulo,
Removido devido ao grande acúmulo
De ossos, alças, sem nenhum nexo.
Sobre você, o silêncio da história.
Nem uma linha, adjetivo, saudade,
Também terão ido para a eternidade
Aqueles que te guardavam na memória.
E a Terra, sob este sol que chamusca,
Na primavera, florirá espetacularmente.
só então você, fruto da própria semente,
Há de ser, afinal, a essência que busca.
Viralobos, quando sozinho, despenca em outras ruas e atalhos. ‘‘somenos importância’’ é um bom exemplo. Ele revela que quando está longe das caixas e dos clientes do Banco do Brasil, onde trabalha diariamente 10 horas por dia, suas preocupações estão concentradas no esforço mental da criação.
eu, aliás, eu mesmo
escrever é um vício a sós
não sou melhor que ninguém
vocês são melhores que nós
no entanto, há tanto tempo
fazemos pouco da lei
do menor esforço craniano
e mixamos na mesma voz
os solos que cada um tem
quatro rios, uma só foz
suruba mental com todo respeito
às vezes é bom ser do bom
As tormentas do cristianismo são discutidas por Viralobos e Wojciechowski no poema ‘‘Epitáfio para uma extrema-unção’’ (‘‘aqui jazeu’’). O músico Rodrigo Homem interage com os poetas e tenta mantê-los nos trilhos.
Deus está no instinto
da dor pior que houver.
Não há ninguém, por menos crente neste mito,
que não se lembre do bicho, na hora do vamos ver.
Desespero tem quase Deus no seu pêlo
e atinge seus momentos de maior demência,
quando Ele se deixa possuir pelo domo,
pra converter pelo terror quem não O teve por sua ciência.
Amigo ateu da mesma crença, desaprendamos nossa cartilha.
No último minuto da prorrogação de tua dor
a mão do teu braço torcido vai abraçar o livro sagrado
(ao menos uma pisadela nos caminhos do Senhor).
Felicidade é Deus em desuso:
- oxalá não precisemos mais Dele.
Quando enfim ficarmos, seus cordeiros,
todos puros de alma e pele,
Ele que acabe seus dias recluso

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