VERSUS
Fazer poesia é quase sempre um gesto solitário. Uma intimidade entre o poeta e a palavra que se perde quando um interlocutor vem compartilhar daquele pensamento estético, tirando a exclusividade do criador sobre a sua criatura. Talvez o sentido da perda faça os poetas esconderem durante anos sua produção, a tal ponto que a poesia de gaveta passa a ser um trunfo e um mistério de quem se nega a dividir coisas íntimas.
Existem ainda os poetas durões. Aqueles que, por princípio, não deixam escapar um verso fora do âmbito da sua rigorosa autocrítica. Uma atitude madura de quem privilegia a qualidade sobre o exercício da divulgação fácil. Nesse terreno, já se sabe, é possível ser bem recebido ou queimar as asas com a mesma facilidade, visto que a poesia é um vôo difícil, um pássaro que pode planar com arte ou pousar de maneira desastrada, criando para seu autor a fama de poeta prematuro ou equivocado.
Por estas e outras, é difícil convencer pessoas a tirar sua produção da gaveta. Um trabalho de garimpagem que passa primeiro pela leitura de textos que os autores concedem num momento de graça ou de porre. Depois pelo convencimento mútuo de que aquilo tem qualidade e, finalmente, firma-se no terreno permissivo da produção a ser compartilhada. Enfim, uma série de considerações até a sinalização do vamos em frente e a constatação de que a poesia será sempre um risco.
Pensando nos poetas de gaveta, nos tímidos e por que não ? nos insolentes, a Folha 2 abre uma página mensal para poemas inéditos a partir dessa edição. Um exercício que pressupõe um critério de seleção a partir da força poética dos textos e não somente um espaço a ser utilizado pelos que nunca publicaram. A poesia é aqui a tentativa de vislumbrar a quantas anda a produção neste terreno em que as publicações especializadas continuam escassas. Queremos invadir gavetas, pedindo delicadamente aos poetas que soltem seus pássaros. (Célia Musilli)
Arquivo pessoalYgor Raduy





