Arquivo FolhaMaurício Arruda Mendonça: primeiro livro de poemas tem versos construídos com elegância e delicadeza Quando a poesia acorda pela manhã e, ainda de olhos inchados, resolve caminhar pelas ruas da cidade, pode sentir uma infinidade de sensações e visões.
Do lado esquerdo da calçada, ela pode perceber um toco de cigarro manchado de batom jogado na sarjeta, cães latindo no mesmo timbre que a voz de seus donos, as cores dos carros deformadas pela velocidade, vasos secos por falta de atenção. Do lado direito, o movimento de uma folha solitária que roda pela calçada empurrada pelo vento, o som das heras subindo pelos muros, o silêncio do coração das cigarras agarrado às árvores, a brisa com sua suave língua lambendo o rosto das crianças enquanto gatos miam para borboletas amarelas. Pequenas sutilezas despidas de glória.
É exatamente nestas calçadas, onde cada pequeno acontecimento acalenta uma reflexão, que caminha a poesia de Maurício Arruda Mendonça em seu livro ‘‘Eu Caminhava Assim Tão Distraído’’, recém-lançado pela Editora Sette Letras. São versos que entram, com intimidade, na sensibilidade do leitor.
A distração referida no título da obra se aplica somente à percepção, aos olhos abertos para as coisas que conferem ao tempo a simplicidade da existência. A percepção que, liberta da rigidez, pode apreciar folhas de outono descansando ao lado do focinho do cachorro que dorme ao pé da porta. Na estrutura formal, não há distrações, tudo ocupa seu devido lugar com precisão. Sem desprezar a tradição literária, Maurício Arruda Mendonça possui uma poética madura, como se a palavra fosse uma velha companheira de viagem.
O livro possui um marcante clima de outono, onde a recolhimento ainda não deu adeus à expansão. Seus versos podem construir elegantes delicadezas : ‘‘eu ia caminhando e / você sorria para mim / sem conseguir achar / palavras / para as coisas que você sentia e sentia / seu silêncio envolto / em névoa de borboletas / ou eram libélulas / que batiam / se emaranhavam / nos cabelos / ou eram / simplesmente / o coração da brisa / que cães lambiam / e eu ia caminhando / e você sorria / caminhando também / porque você não sabia / que o silêncio /e o que você sentia / derrubava as folhas no caminho’’. Podem dar uma forma humana às palavras: ‘‘olha / eu ando louco à procura / de um olhar que como o / seu me acalme um pouco / e eu possa chamar poema / salto de cervo / lua de outono’’.
Podem também tocar os lugares mais sensíveis da noite: ‘‘olha / velocidade é uma fissura da juventude / solidão é um método maluco / de saber quem está dentro de você / quando a cidade inteira te odeia / mas entre almas de jeans / você segue / olha / nada na neblina / além de borboletas transando / estátuas se mexendo / pessoas que se esqueceram de sorrir / e você vai se matando / de tanto dizer sim / mas / olha / a chuva fina no asfalto / meu suor em sua pele / para sempre’’.
Vamos supor que o poeta seja um pescador, e o poema seu peixe. Ele sai de casa com seu caniço, linha, anzol, iscas e um chapéu para o sol. Senta-se na margem do rio e lança sua isca. Todos sabem que existe uma técnica própria para a prática da pesca. A tradição de como colocar a isca, os melhores lugares do rio, o tipo de nó na linha, o silêncio e a solidão necessária para não espantar os peixes e outros detalhes.
Pode-se dizer que há dois tipos básicos de pescadores. Aqueles que jogam a linha e mantêm toda atenção na água onde a chumbada desenha círculos, e tudo mais que existe a sua volta desaparece. Quando a linha pesa, puxam o peixe para fora. Há também aqueles que jogam a linha e ficam ali, olhando as árvores, ouvindo o canto dos pássaros, apreciando o desenho das nuvens, vendo os grilos pulando pela grama e tudo mais. Quando o peixe morde a isca, eles o recolhem.
Para o primeiro, o objetivo é o peixe e para isso fecha-se a todas sensações a sua volta. Para o segundo, o objetivo também é o peixe mas ele não se fecha para a vida à sua volta, pois compreende que o peixe faz parte dela.
Tudo indica que os mais interessantes criadores da mais recente poesia brasileira estão pescando como o segundo pescador descrito. ‘‘Eu Caminhava Assim Tão Distraído’’ deixa claro que Maurício Arruda Mendonça se enquadra com destaque neste grupo de pescadores.
Apesar de ser seu livro de estréia como poeta, Maurício Arruda Mendonça, aos 33 anos de idade não é um iniciante. Nos últimos dez anos vem publicando poemas em diversos suplementos culturais e revistas literárias. Como tradutor possui dois livros publicados em parceria com Rodrigo Garcia Lopes, ‘‘Sylvia Plath - Poemas’’ e ‘‘Iluminuras - Gravuras Coloridas’’ de Arthur Rimbaud, ambos pela editora paulista Iluminuras. Possui ainda duas obras inéditas de tradução. Uma com hai-kais do mestre japonês Nenpuko Sato e outra com textos do lendário poeta chinês Po Chu-I. Também publicou, esparsamente, traduções de diferentes autores como Guido Cavalcante, Ezra Pound, e.e.cummings, Jack Kerouac, Jim Morrison, Patti Smith e outros. Como dramaturgo, realizou vários trabalhos para o Armazém Companhia de Teatro.
‘‘Eu Caminhava Assim Tão Distraído’’ de Maurício Arruda Mendonça, Editora Sette Letras, 56 páginas, R$ 15,00/Livraria Rosa do Povo (fone 321-5691).

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