‘‘A máquina que move o mundo, o tilintar / de moedas virtuais, cartões de crédito, / senha bancária, fobias sexuais, papos de velhos, / sapos peludos, papudos otários dando / de espertos, mirando a terra como campo / de erros, onde crescem heras que enfeitam / os muros, enquanto monturos de gente / azedando no lixo, emporcalham a festança / dos donos de seguros, como se a vida fosse algo / seguro, como se as estrelas não se acendessem no escuro.’’
Esse é um dos poemas que integram o novo livro do poeta e jornalista Ademir Assunção. ‘‘Zona Branca’’, publicado pela Editora Altana, será lançado oficialmente na terça-feira, no Finnegan’s Pub, em São Paulo. Durante o evento será realizada uma leitura de poemas com Arrigo Barnabé, Chico César, Rodrigo Garcia Lopes e Tom Zé (este ainda não confirmado), acompanhados pelos músicos Luiz Waack e Madan.
Após duas incursões pela prosa, ‘‘Máquina Peluda’’ (Ateliê Editorial, 1997) e ‘‘Cinemitologias’’ (Edições Ciência do Acidente, 1998) Ademir Assunção volta à poesia com força renovada. ‘‘Zona Branca’’ traz versos produzidos nos últimos anos que trafegam entre o tranquilo lirismo e raiva energética.
Para ambientar as várias seções da obra, o autor criou um território ocupado por eles, a chamada ‘‘zona branca’’. Esse território seria uma espécie de presídio de segurança máxima onde estão recolhidos os rebeldes do sistema imposto pelo mundo globalizado. O lugar é descrito da seguinte forma: ‘‘Não pensem que é uma penitenciária convencional, com grossas paredes, grades e portões de ferro ou altas muralhas guardada por policiais fortemente armados e com incontrolável instinto sádico. Nada disso. Trata-se de algo muito mais sombrio e sofisticado: uma área de deslocamento, em outra dimensão espaço/tempo, onde os presidiários são submetidos à incomunicabilidade total, embora possam ver em detalhes tudo o que está acontecendo em torno deles, no chamado mundo real. Um território de isolamento absoluto, concebido pelo gênio de cientistas inescrupulosos, financiados por grandes empresas transnacionais.’’
Apesar dessa embalagem de ficção científica, os poemas que integram o livro caminham pelas próprias pernas, dentro de estilos diversificados e sempre pautados por uma linguagem cultivada pelo ritmo. Embora dispare farpas na direção de alvos precisos, como os publicitários que transformaram Che Guevara num anúncio de detergente, Assunção também trabalha com elementos de maior sutilezas, como a percepção dos pequeninos detalhes que sustentam a vida.
Paulista, Ademir Assunção residiu por muitos anos em Londrina. Como letrista, possui parcerias gravadas por compositores como Itamar Assunção, Edvaldo Santana, Madan, Bernardo Pellegrini e Titane. ‘‘Zona Branca’’ é seu terceiro livro de poemas. (M.L.)
•‘‘Zona Branca’’, de Ademir Assunção, Editora Altana, 126 páginas, R$ 17,00.

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