Versos de amor e liberdade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Fernanda Brambilla<br> Agência Estado 
Com versos sobre um mundo de amor e liberdade, o escritor chileno Pablo Neruda (1904-1973) firmou-se como uma das vozes mais contundentes da poesia no século 20. Apenas dois anos antes de sua morte, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Muito tempo se passou desde então e, para a geração que o conhece somente da música de Chico Buarque (Devolva o Neruda que você me tomou/E nunca leu - ''Trocando em Miúdos'') chega este mês às livrarias ''Neruda Para Jovens - Antologia Poética'', que dispõe lado a lado trechos originais das principais obras em espanhol e a tradução em português.
Na rica coleção, ganham destaque poemas pinçados de seus livros mais famosos, numa amostra do abrangente universo de inspiração do poeta. Seus versos discorrem sobre o amor lírico, mas também falam de melancolia e angústia que são persistentes na trajetória irrequieta que Neruda levou em vida. Durante muito tempo, ele conciliou a vida de escritor com funções diplomáticas: foi cônsul na Espanha e no México e embaixador na França. Eleito senador do Partido Comunista, em 1945, foi cassado e preso, e passou a viajar por diversos países, até regressar ao Chile nos anos 50, quando se tornou aliado de Salvador Allende.
De um de seus livros mais famosos, ''Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada'' (1924), suas palavras retratam um amor perdido: ''Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Pensar que não a tenho. Sentindo que a perdi. Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. E o verso cai na alma, como no campo o rocio''.
Além da faceta romântica, é possível apreciar bons momentos do humor apurado do poeta, como nos versos sobre assuntos mundanos. Em ''Ode ao Sabão'', do livro ''Novas Odes Elementares'' (1956), Neruda brinca: ''O que trazes, sabão, às narinas tão cedo de manhã antes de entrar na água matutina?(...) És aroma transitório que naufraga como um peixe cego na profundeza da banheira''.
Em ''Ode ao Gato'', extraído do livro ''Estravagario'' (1958), o poeta faz graça: ''O homem quer ser pássaro; a serpente gostaria de ter asas, o cachorro é um leão desorientado, o engenheiro gostaria de ser poeta, a mosca estuda pra ser andorinha, o poeta trata de imitar a mosca, mas o gato quer ser somente gato''.
E mesmo em meio a suas epifanias alegres, a tristeza doce e, ao mesmo tempo, amarga sempre escapa em suas poesias, como pode ser comprovado em trecho do ''Livro das Perguntas'' (1974): ''Se morri e não me dei conta, para quem pergunto as horas? Lágrimas não derramadas esperam em lagos pequenos? Ou serão rios invisíveis que correm para a tristeza?''. Neruda, na verdade, chamava-se Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. Escolheu o pseudônimo em homenagem ao poeta tcheco Jan Neruda e ao francês Paul Verlaine.


