Versos das entranhas do povo
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O canivete vai, lentamente, talhando a madeira. O desenho, às vezes tosco, se torna a matriz da capa de um folheto de cordel. Na imagem, o artista tenta resumir o que foi escrito e impresso em versos rimados em frágeis folhas de papel. Para arrematar, o conjunto é colado com uma goma caseira.
O resultado é mais um livro de cordel, uma literatura que não alcança os olhos das elites, mas que retrata de forma única temas variados do cotidiano popular. Como um repórter arraigado nas entranhas do povo, o cordelista reproduz uma realidade que não frequenta os noticiários e muitas vezes atravessa a peneira das pesquisas acadêmicas.
Praticamente extinta em outros lugares do mundo, como na França e na Espanha, a literatura de cordel produzida no Brasil ainda é volumosa e tem atraído as atenções de pesquisadores internacionais. O que pouca gente sabe é que a Universidade Estadual de Londrina UEL abriga o segundo maior acervo do mundo. Mais ainda: este material está à disposição, para consulta e estudos, da comunidade.
A coleção começou quando o professor Alcides Vitor de Carvalho terminou o mestrado sobre Literatura Popular em Verso no Brasil, na Sorbonne, França. De volta ao Brasil, Carvalho viajou por vários Estados recolhendo livros de cordel. Sua intenção era voltar para a Europa e defender o doutorado sobre o assunto.
Arquivo FolhaAlcides de Carvalho estudou sobre literatura de cordel na Sorbonne
Na França, Alcides de Carvalho estudou com Raymond Cantel, um pesquisador que vinha ao Brasil com frequência em busca de novos exemplares. Decano da Sorbonne, Cantel tinha uma grande coleção.
O acervo da UEL surgiu com doações diversas, principalmente do próprio Alcides de Carvalho e, recentemente, do pesquisador Enno Theodor Wanke, residente no Rio de Janeiro, que cedeu 1.500 exemplares. A universidade possui 3 mil livros catalogados e acomodados em pastas, separados em sacos plásticos. Segundo Alcides de Carvalho, é a coleção mais organizada e a única com a característica de estar à disposição do público.
O acervo da UEL não é uma coisa muito conhecida, mas quem passa a conhecer se apaixona. Os livros estão catalogados por título, por ciclos e por autor. É uma literatura muito singular. Se você quiser contar a história do Brasil por intermédio da literatura de cordel, é possível, explica a bibliotecária Dirce Missae Suzuki Fernandes, da Biblioteca Central da UEL, onde os cordéis estão acomodados. O primeiro catálogo do acervo foi feito em 1994. Em 1997, saiu o segundo.
A preocupação em conservar o material procede, pois o papel dos cordéis oxida rapidamente, tornando-se quebradiço. Os livrinhos são frágeis pela própria falta de condição dos autores em investir na qualidade. Por isso, são raros os folhetos muito antigos.
O maior acervo do mundo com 8 mil títulos está na Universidade de Tsukuba, próxima a Tóquio, onde vários pesquisadores aprendem o português para estudar os cordéis brasileiros. Os japoneses, aliás, vêm ao Brasil com frequência atrás de novidades. Um dos projetos em discussão entre os pesquisadores é a possibilidade de unir os três principais acervos do mundo via Internet.
É uma riqueza que temos aí e pouca gente conhece. O Brasil é hoje o país onde talvez o cordel seja mais produzido. Na França já acabou, na Espanha quase não existe. Foi acabando com o progresso, em alguns lugares foi completamente exterminado, comenta Alcides de Carvalho. Na França, por exemplo, os cordéis foram queimados em praça pública durante o período da Reforma, época em que os escritos eram vendidos por mascates.
É uma literatura muito realista, que expressa a realidade do povo e não chega ao conhecimento da elite cultural. São títulos que são renovados. É uma cultura muito entranhada no povo, nas classes baixas, na grande maioria do Brasil que teve muita ligação com o meio rural, explica Alcides.
Não só a importância cultural do cordel impressiona, mas o conhecimento que armazena proveniente de suas origens. Esse tipo de literatura já foi identificado em povos árabes, na China, França, Espanha, Portugal e outros países. Provavelmente chegou ao Brasil pelas mãos dos próprios colonizadores. Em 1836, por exemplo, se tem notícia da circulação de O Romance da Pedra do Reino, ambientado em Pernambuco.
Entre os temas destacam-se histórias ocorridas em plena Idade Média, recontada em versos por escritores do sertão. Um dos cordéis recolhidos por Alcides de Carvalho contava a história de uma princesa sequestrada pelos árabes e que, no decorrer dos acontecimentos, ergueu uma igreja em agradecimento por escapar com vida.
O pesquisador ficou surpreso ao se deparar, na França, com uma igreja que trazia o mesmo nome da princesa. Curioso, Alcides descobriu que a história da igreja e a contada no cordel era a mesma. Como o tema foi parar na memória do escritor brasileiro, não se sabe.
Esses poetas têm uma produção que vem lá da Idade Média e não sofre influência das escolas literárias. O conteúdo acompanha o pensamento do povo. No cordel está impressa a nossa cultura. Os versos são rimados para facilitar a memorização, ressalta.
A temática é variada. De lendas do sertão a grandes feitos, de batalhas medievais a conquistas políticas, de golpes financeiros ao humor, da corrupção à devoção religiosa, a literatura de cordel apresenta diversos ciclos. Um deles, por exemplo, é o ciclo do boi, em que o animal é representado de forma natural na relação do homem com a natureza.
Posteriormente, essa relação muda. No ciclo do boi misterioso, o animal já está consagrado no cotidiano do caboclo. Há uma mistificação dos seres benéficos, que colaboram com a sobrevivência. Entre outros, existem o ciclo dos santos, o ciclo carolíngeo e o dos romances populares. A admiração se estende a figuras expressivas como Padre Cícero, Lampião ou Getúlio Vargas, desembocando num ciclo de biografias.
Atualmente, com novas tecnologias inclusive o computador e o xerox os cordelistas se deitam sobre temas como novelas, motoboys, política, enfim, consequentes da sociedade atual. O povo assiste à novela e depois procura o cordel para ver o que o poeta falou sobre o fato. É uma reconstrução da história em versos, afirma Alcides.
O pesquisador espera que, com a divulgação do acervo, mais estudiosos se interessem pelo assunto e colaborem para a continuidade do gênero, além de esclarecer sua penetração no conhecimento popular como reflexo de uma realidade que escapa a outros meios de expressão.





