Aos 72 anos, o poeta Moacyr Félix parece um novato. Sem papas na língua, o autor fala do novo livro, ‘‘Singular Plural’’, com o entusiasmo típico de estreantes. Mas, na verdade, Moacyr está comemorando 50 anos de carreira e uma trajetória intelectual que se confunde com a história do País. Com uma memória invejável, o escritor relembra os poemas que fazem parte da coletânea lançada pela Editora Record. O livro reproduz textos de Moacyr de 1944 até 1993 - apenas uma parte da obra do autor. Ainda esse ano, a editora publica os poemas escritos nos últimos cinco anos.
Quando começou a escrever poesias, Moacyr nem podia imaginar que um dia viria a fazer parte do seleto grupo de pensadores do País. Há mais de 50 anos, em um pequeno quarto alugado em Paris - onde chegou só com o dinheiro da passagem - o autor dividia o tempo entre a faculdade de Filosofia na Sorbonne e a função de locutor de programas de rádio destinados ao público latino-americano. ‘‘Eu pensava: meu Deus, será que esse negócio de fazer poesia vai dar certo?’’, diverte-se o escritor. De volta ao Brasil, além de ter as poesias publicadas, Moacyr passou a dirigir, junto com Ênio Silveira, a editora Paz e Terra - responsável pela publicação de ensaios filosóficos de intelectuais do País e de fora. Mais tarde, dirigiu a Revista da Civilização Brasileira. Entre outros pensadores, a revista publicava ensaios enviados pelo presidente Fernando Henrique diretamente do exílio. ‘‘Eram grandes ensaios’’, relembra. ‘‘Tudo exatamente o contrário do que ele fala hoje’’, aproveita para alfinetar.
Por que o título ‘‘Singular Plural?’’
Moacyr Félix - ‘‘Singular Plural’’ é baseado em uma das minhas definições básicas de poesia. É o título do poema que abre o livro. O poeta é um singular plural. Ou seja, na medida em que ele pergunta pela singularidade dele, o indivíduo que ele é, ele vai achar a história na qual ele está inserido, a totalidade que condiciona essa singularidade.
No livro, você fez algumas modificações em poesias originais. Por que decidiu alterar versos e estrofes?
Moacyr Félix - Eu retornei a todos os meus livros e tirei amostras de cada um. ‘‘Singular Plural’’ não tem 50% de toda minha poesia. Um volume com toda a minha obra daria 1.130 páginas. Agora, quando volto para certos livros, volta e meia acho um defeito no poema ou uma possibilidade de melhora. Quero fazer sempre o melhor para o leitor. Assim como a gente tenta melhorar o que a gente é no cotidiano, eu tento melhorar aquilo que fiz. Estou sempre voltando ao passado e trabalhando em cima dele. É como mudar um penteado, sem alterar a essência da pessoa.
Várias poesias do livro são dedicadas a outros escritores e poetas. Por que decidiu fazer essa homenagem?
Moacyr Félix - São poetas que me ligam, que vêm na minha casa... Então achei que esse livro pudesse travar um diálogo com eles e estimulá-los. Alguns deles são poetas realmente definitivos, outros estão no meio do caminho e fazem boa poesia. Aliás, se eu pudesse dedicar, dedicaria a todos os poetas do Brasil. Esse País tem poetas extraordinários.
Você sempre publicou poesias. Não tem vontade de enveredar por outras áreas?
Moacyr Félix - Tenho vontade de fazer um livro de ensaios sobre literatura, estética, história, arte, amor... E pretendo fazer isso antes de morrer. Acho que vou morrer em breve... Não penso em escrever minha biografia, mas já tenho algumas propostas. Dizem que a minha história é a História do Brasil.
De fato, sua trajetória se confunde com importantes momentos políticos do País. Como foi viver o golpe de 64, quando você teve as obras consideradas subversivas?
Moacyr Félix - Quando o golpe foi dado, pediram prisão preventiva de apenas três intelectuais: Nelson Werneck Sodré, Ênio Silveira e Moacyr Félix. Graças a Deus, pediram a preventiva, senão eu estaria liquidado. Porque eu tinha um compromisso comigo mesmo de não sair do País. Eu morria, mas não saía. Estava disposto até a me suicidar em protesto. Eu tinha essas idéias malucas... O Dias Gomes dizia que o poeta parece um peixe sabido, que sempre foge pelo buraco da rede. E foi isso que fiz, saí de casa para sempre e vivia igual cachorro, sempre de orelha em pé.
Você trabalhou ao lado de Jorge Amado e Oscar Niemeyer no jornal comunista Para Todos. Como foi essa experiência?
Moacyr Félix - Excelente. O redator-chefe era o Moacyr Werneck de Castro. Nesse jornal eu tinha a coluna ‘‘Um Poeta na Cidade do Tempo’’, onde fazia uma profusão de versos socialistas. Ao mesmo tempo, tem estrofes em que eu critico duramente, faço negação absoluta e meto pau no stalinismo, no dogmatismo. Os comunistas ainda elogiavam o Stalin e ficavam horrorizados comigo. Por isso é que eu não entrava para o partido. Eles tinham idéias comuns, primárias, da décima quinta geração partidária.
Como você vê a poesia no Brasil atualmente?
Moacyr Félix - Na minha vida já li mais de 10 mil poesias originais. O governo está começando a incentivar a poesia, mas ainda falta muito. O problema todo é a panelinha que controla a imprensa. O mal da literatura é a panelinha. Não tolero a intolerância. É um pequeno grupo que tem um peso forte na mídia. E isso prejudica a divulgação da cultura. A literatura não pode ser exclusivista, sectária, dogmática... A literatura acaba sendo oportunista e aética. E a ética é fundamental para a estética.Luiza Dantas/Carta Z NotíciasMoacyr
Félix:
‘‘Um
volume
com toda
a minha
obra
daria
1.130
páginas’’Isadora Andrade
TV Press

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