VERSÕES CONTEMPORÂNEAS
Nelson Sato
Ficar com um pé atrás diante de discos-tributos virou quase uma obrigação. Tornou-se uma regra de conduta para se desviar dos projetos bem-intencionados, mas de resultados duvidosos que poluem todos os anos as prateleiras das lojas.
No caso do CD Jackson do Pandeiro - Revisto e Sampleado, não há com que se preocupar. É uma bem montada coletânea de versões, cujo viés interpretativo vai de regravações respeitosas a releituras radicalmente modernas dos sucessos do músico paraibano.
O disco foi idealizado pelo radialista Maurício Valladares a convite da gravadora BMG. Chega na esteira da reabilitação do artista, iniciada no ano passado com a homenagem a ele prestada durante a entrega do Prêmio Sharp. O CD reúne desde artistas influenciados diretamente pelo rei do ritmo como Gal Costa, Elba Ramalho e Dominguinhos a discípulos recentes como Rappa, Cascabulho e Funk Fuckers.
O disco abre e fecha com Lenine, em duas participações empolgantes. A ruidosa Jack Soul Brasileiro, já gravada por Fernanda Abreu, é de sua autoria. Cheia de suingue, destaca seu violão percussivo em meio a batidas eletrônicas e citações de músicas de Jackson. A contemporaneidade reveste também Sebastiana, com introdução techno e riffs de guitarra para aquele que foi o primeiro grande sucesso do homenageado.
Mas a heresia maior do tributo fica por conta da cover nervosa de A Feira, pela banda carioca O Rappa. Guitarras distorcidas e um coro impagável atualizam Jackson para a molecada dos anos 90. Nem todos, porém, apresentam soluções convincentes na tentativa de renovar o repertório do ídolo. As pífias Um a Um dos Paralamas e Cremilda dos Fuck Fuckers, a pretensiosa Meu Enxoval de Fernanda Abreu e a equivocada A Mulher que Virou Homem de Gabriel O Pensador destoam da maioria das colaborações.
Gal Costa, fã de primeira hora do artista, converte Chiclete com Banana num samba-rock pontuando o arranjo com seção de metais e uma guitarra de surf music. A música, vale lembrar, está registrada como parceria de Gordurinha e Almira Castilho (ex-mulher de Jackson), mas pessoas ligadas ao músico já garantiram que essa canção teria sido um presente dele para Almira.
As reinterpretações menos ambiciosas, por sua vez, sobressaem com graus variados de fidelidade às gravações originais. Desponta aqui a abordagem de Fagner para A Cantiga de Sapo, com arranjo e regência de Hermeto Paschoal. Mas, além dos citados, o tributo traz ainda Chico Buarque e Zeca Pagodinho (A Mulher do Aníbal), Geraldo Azevedo e Cascabulho (Na Base da Chinela), Zé Ramalho (Casaca de Couro), Elba Ramalho (O Canto da Ema), Renata Arruda (Coco do Norte) e Marinês e Sua Gente e Dominguinhos (Forró em Limoeiro).
Ao longo das faixas, prevalece a herança deixada pelo músico, que se revela na divisão rítmica dos vocais e na fusão da malícia do samba carioca com o suingue das emboladas e cocos nordestinos. O tributo chega em hora oportuna nas lojas, já que no mês que vem será comemorado o 80º aniversário de nascimento do artista.Disco-tributo revisita obra de Jackson do Pandeiro nas vozes de artistas como Chico Buarque, Gal Costa, Lenine e Fernanda Abreu
Arquivo FolhaLenine abre e fecha o CD com interpretações empolgantesReproduçãoFagner é um dos destaques com a versão de A cantiga do SapoCapa do disco





