Versatilidade lucrativa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de março de 2012
Geraldo Bessa <br> <br> TV Press 
A adaptação de longa-metragens em séries de tevê e vice-versa é algo bem comum e muito frutífero no mercado de comunicação norte-americano. De olho nessa ''venda casada'' de produtos, o Brasil está cada vez mais inserido nesse efeito ''transmídia'', em que a televisão usa histórias bem-sucedidas do cinema para atrair prestígio com produções já conhecidas por parte do público. Enquanto isso, o cinema aproveita-se da divulgação em massa e da exposição publicitária da tevê.
''A grande diferença está na linguagem. Ao levar um filme para a tevê, é preciso entender que o público irá aumentar vertiginosamente e que a história precisa se adequar a um perfil mais popular, sem perder as características do produto original'', destaca Guel Arraes, responsável pela adaptação do filme ''A Mulher Invisível'', longa de Cláudio Torres, para o formato de série. Guel é um dos maiores entusiastas do diálogo traçado entre o cinema nacional e a Globo, a partir da microssérie ''O Auto da Compadecida'', dirigida por ele em 1999, e lançada como longa-metragem no ano seguinte.
Atualmente, a lista de produções oriundas do cinema que foram para a tevê é tão numerosa quanto os produtos televisivos que invadiram as ''telonas''. E, se antes as produções só eram adaptadas para outra linguagem depois de lançadas, agora a adequação aos formatos de cinema e tevê já é pensada desde a pré-produção.
''Filmamos a série e o filme ao mesmo tempo. O roteiro é praticamente o mesmo. Só que no cinema é possível ousar mais. A televisão está cheia de restrições classificativas, então é preciso amenizar um pouco o discurso, poupar alguns palavrões'', diverte-se Jorge Fernando, diretor da microssérie ''Dercy de Verdade'', e do filme homônimo, com lançamento previsto para o ano que vem.
Sem medo de esvaziar o produto adaptado, roteiristas e diretores capricham na captação de imagens diferentes e que possibilitem outras montagens para a história. ''Não dá para ser a mesma coisa. Seja no cinema ou na tevê, é preciso chamar a atenção do público. Ele exige e merece novidades. Vamos utilizar o material extra para a série, pois nem tudo que registramos coube no filme'', entrega Cao Hamburger, diretor de ''Xingu'', longa que aborda a criação do Parque Nacional do Xingu, nos anos 60, e que será transformado em uma microssérie de quatro episódios.
Com estreia prevista para 6 de abril nos cinemas, ''Xingu'' é a quarta produção feita em parceira pela produtora paulistana O2 Filmes, do diretor Fernando Meirelles, com a Globo. E vem na sequência de ''Cidade dos Homens'', seriado baseado no longa ''Cidade de Deus'', de 2002; ''Antônia'', série construída a partir da história do filme homônimo, de 2006, dirigido por Tata Amaral; e, finalmente, ''Som & Fúria'', minissérie de 2009, e adaptada para o cinema meses depois de sua exibição.
Grande parte da ligação da Globo com o cinema começou com a influência do braço cinematográfico da emissora, a Globo Filmes, no mercado. Além de desenvolver projetos ligados às séries exibidas na tevê, a empresa também associa-se aos produtores de filmes concebidos de forma independente. ''Ao entrar na coprodução dos filmes, temos a intenção de criar público e visibilidade ao produto. Queremos aumentar a participação do cinema nacional no mercado'', assume Carlos Eduardo Rodrigues, diretor executivo da Globo Filmes.
Tem conseguido. Da retomada do cinema nacional, entre 1994 e 1995, a empresa coproduziu mais de 90 filmes, entre eles, os dez maiores sucessos de bilheteria da retomada do cinema brasileiro.
Amante do cinema, e criticado por seu olhar televisivo presente nos filmes que capitaneou, como ''Divã'', o diretor José Alvarenga Jr. assume que se apaixonou pela história da mulher de meia-idade retratada no texto de Martha Medeiros. No entanto, ele só teve carta branca para adaptar a trama para o formato de série depois do ótimo desempenho do filme no cinema, que ultrapassou a marca de um milhão e meio de público.
''Televisão é um veículo popular. É preciso respeitar isso. Não é todo filme que pode render uma boa série. E não é toda série que tem cacife de ir para o cinema. Adapto filmes para a televisão e séries para o cinema de propósito. Para confundir'', admite Alvarenga, responsável pela série ''Divã'', derivada do filme homônimo, e também pela série ''Os Normais'', que já rendeu duas incursões pelo cinema: ''Os Normais - O Filme'', de 2003, e ''Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas'', de 2009.


