VERSATILIDADE EM PESSOA
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de agosto de 2001
André Bernardo<BR>TV Press 
As caras e bocas de Heloísa Perissé estão por toda parte na Globo. De segunda a sexta, a atriz faz a sabida Tati, a aluna que abusa de gírias adolescentes na ''Escolinha do Professor Raimundo''. Aos sábados, sofre como a esperta Malu, uma ''patricinha'' assanhada que não paquera ninguém por causa da amiga Bel, vivida por Daniele Valente, no ''Zorra Total''. Nas horas vagas, empresta o talento cômico a outros tipos, como a caipira mandona do episódio ''A Onça'', do ''Brava Gente'', ou a dondoca frígida de ''Implicância é Normal'', de ''Os Normais''. Apesar da correria, que gerou uma gastroenterite, Heloísa agradece a Deus pela ótima fase. ''Nunca deixei o fracasso subir à minha cabeça. Sabia que meu dia ia chegar. Era só questão de tempo'', assegura.
Aos 34 anos, Heloísa afirma que penou um bocado até conseguir esse espaço. Até teste para novela ela fez. Mas não passou em nenhum. ''Era muito tímida. Na hora H, dava tudo errado'', ri. Mesmo assim, não desanimou e passou com louvor nos testes para redatora. Fez ''O Belo e As Feras'' e ''A Escolinha do Professor Raimundo'', ambos capitaneados por Chico Anysio, sogro de Heloísa. Casada há nove anos com Lug de Paula, garante que nunca foi favorecida por quem quer que seja. ''Só fiz a 'Escolinha' porque o Chico acreditou na profissional que eu sou. Não por eu ser nora, filha ou avó...'', enfatiza.
Na ''Escolinha'', Heloísa começou como a Dona Neném, aquela do filho que não nascia nunca. Em seguida, fez a Soledade, a viúva que passava mal só de ouvir falar no finado. Quando a ''Escolinha'' mudou de horário, Heloísa mudou de personagem. Em vez da viúva fogosa, uma adolescente sabichona. ''Televisão é a escola do Terceiro Mundo. Se eu puder passar um mínimo de informação a quem vê, já me dou por satisfeita'', acredita. A aluna ''sabe-tudo'' da ''Escolinha'' ganhou também os palcos de teatro. Ela é uma das seis personagens da peça ''Cócegas'', escrita em parceria com a atriz Ingrid Guimarães. A versatilidade da moça acaba de ser recompensada com duas indicações para o Prêmio Shell de melhor atriz e autora.
Você esperava que a Tati, a adolescente sabichona da ''Escolinha do Professor Raimundo'', fizesse tanto sucesso?
Sinceramente, não. Quando a ''Escolinha do Professor Raimundo'' mudou de horário, achei a Dona Soledade muito picante para a tarde. Falei com o Chico que estava pensando em mudar de personagem e ele ficou cabreiro. O Chico gostava muito da viúva. Mas foi só eu mostrar a Tati para ele aceitar. ''Cara, Napoleão mandava muito...''. Aí, ela explica um trecho da História de maneira divertida e acessível. Na mesma hora, aprovou a mudança. Mesmo assim, cheguei a achar que a Tati não seria muito bem aceita por ser uma adolescente tipicamente carioca. Achei que o público de outros estados poderiam rejeitá-la. ''Olha, Chico, se a Tati não der certo, volto correndo para a Soledade''. No entanto, logo comecei a receber cartas de todo o Brasil. E todo mundo dizia a mesma coisa: as pessoas vêem a Tati nas filhas, irmãs, amigas de colégio, etc. Tem sempre alguém que se parece ou se identifica com ela.
Você não ficou receosa que a personagem fosse vista como uma caricatura debochada das adolescentes em geral?
Fiquei, mas a Tati não é uma crítica ou um deboche. É uma homenagem. A adolescência é uma das melhores fases da vida. Eu mesma fui igualzinha a ela. Fui, não. Sou. Sou uma adolescente com todas as letras maiúsculas. Às vezes, as pessoas elogiam a minha atuação e dizem que faço muito bem a danada da Tati. A Ingrid costuma dizer: ''Loló, não é que você faça bem a personagem. Você é a própria personagem...''. A Ingrid matou a charada.
Mas a Tati é mesmo autobiográfica ou você buscou inspiração em outra pessoa para criá-la?
Esse é um dos personagens de que mais gosto. Eu o criei em 1996, pouco antes de viajar para os Estados Unidos. A minha principal fonte de inspiração foi a Paula, a minha enteada. Na época, ela só tinha 13 anos. Hoje, tem 18. A Paula morria de rir quando eu incorporava a Tati para ela ver. Este universo adolescente é muito rico.
Você sempre teve inclinação para o humor?
Sempre fui a ''palhaça'' da turma. Já no colégio, gostava de imitar os professores na hora do recreio. Era a própria ''menina maluquinha''. Sempre quis ser atriz. Nunca tive dúvidas quanto a isso. Além disso, sempre gostei muito de escrever. Só tirava dez em redação. Morro de rir com essas pessoas que sonham ser médicas, mas fazem faculdade de Administração, exercem o Direito e têm um escritório de decoração. Sempre quis ser atriz e ponto final.
Seus pais sempre apoiaram essa decisão?
No começo, torceram o nariz. A profissão de atriz sempre foi vista como uma profissão muito arriscada. Só que, hoje em dia, todas as profissões são arriscadas. Viver já é arriscado. Não há como negar. Quando eles me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eles ficavam uma fera se eu respondia: ''atriz''. Quando terminei o colegial, comecei a fazer faculdade de Administração só para agradar a meu pai. Fiquei só um semestre e disse a ele que queria me dedicar só ao teatro. Meu pai viu que não tinha jeito e me deu o prazo de um ano para que eu emplacasse. Naquela época, já tinha inventado até nome artístico. Quando virasse atriz, queria me chamar Linda Streisand. Eu achava que o melhor nome que uma mulher podia ter era esse. Por mais feia que a mulher fosse, o nome Linda já dava um ''up-grade''.
Você nunca pensou em fazer novelas?
Em 1991, o Bernardo Jablonski, um dos roteiristas da ''Escolinha'', adaptou a peça ''Irmãos Marx'' para mim. Nela, eu fazia a Doutora Yasmine, uma espécie de Groucho Marx de saias. Ela fumava um charutão deste tamanho e falava um monte de besteiras. Um cara chegava e dizia: ''Boa tarde, doutora, meu nome é Astolfo''. Eu respondia: ''O meu, não. Graças a Deus''. Coisas do tipo. Depois que fiz essa peça, passei a ser convidada para um montão de novelas na Globo, como ''Vamp'' e ''Mulheres de Areia''. Mas não fiz nenhuma. Nunca passei num teste sequer. Não sei o que acontecia comigo. Pode até não parecer, mas sou muito tímida. Às vezes, pensava: ''Puxa, não tenho mesmo vocação para atriz. Vai ver que os meus pais têm razão...''.
Você nunca pensou em desistir da carreira de atriz e arriscar outra profissão?
Não. Nunca deixei o fracasso subir à minha cabeça... Tenho o maior orgulho em dizer que sempre confiei no plano de Deus. Durante todos esses anos, dormi com a cabeça em paz no travesseiro porque nunca precisei passar ninguém para trás ou trair um amigo para fazer sucesso. Sabia que Deus tinha algo de bom reservado para mim. Era apenas uma questão de tempo. Você colhe o que planta. E sempre plantei a minha profissão com muito amor.
Hoje em dia, você não se incomoda por estar com a imagem muito associada a tipos cômicos?
Não. A vida vai me dar a oportunidade de fazer outras coisas. Mesmo que me associem, não vejo nenhum problema nisso. Para mim, é uma alegria. Vejo como as pessoas tratam os artistas que as fazem rir. O público tem um carinho especial por eles. Às vezes, entro numa loja, olho para a vendedora, pergunto o preço de um sapato e ela já começa a rir. ''Mas eu só quero saber o preço deste sapato...'', insisto. E ela ri mais ainda: ''Ela só quer saber o preço do sapato... Ah! Ah! Ah!''. Fico sem entender nada. Já imaginou se eu entrasse na loja e as pessoas ameaçassem cortar os pulsos? Ou entrassem em depressão? Prefiro assim.
Mas você não ambiciona fazer um papel mais sério?
O Chico Anysio me disse, certa vez, que o sonho de todo humorista é fazer um papel sério. Não vejo assim. Não sou humorista. Sou atriz. Já faço teatro há 12 anos. Só fiz drama uma vez na vida. Na peça ''As Guerreiras do Amor'', fazia uma cena em que levava uma porrada na cara. E levava mesmo. O ator enchia a mão. O público vivia dizendo que a minha expressão de pânico era perfeita. E era mesma. Não aguentava mais levar tanta ''bifa'' na cara. Se eu tiver de fazer outro papel dramático, vou fazê-lo sem o menor problema. Mas isso não se trata de uma questão de honra ou coisa parecida. Não quero fazer só para provar que sei fazer. ''Olha, gente, sei fazer... Viram só?''. Não tenho essa ''nóia''.
Você é casada com o Lug de Paula, um dos filhos do Chico Anysio, há nove anos. Qual é a influência que o seu sogro exerceu na sua carreira?
O Chico é o tipo de profissional que dispensa comentários. Tenho uma profunda admiração por ele. Tanto pessoal quanto profissional. Algumas pessoas já me perguntaram: ''Por que ele nunca deu uma oportunidade antes para você?''. Aí, eu respondo: ''Não foi o Chico. Fui eu que nunca me dei essa oportunidade antes''. Nunca fui ao Chico com uma boa proposta de trabalho. Se eu tivesse ido a ele com uma boa proposta, ele teria parado para ouvir. Ele tem o maior interesse de ajudar as pessoas. Mesmo quando fiz ''O Belo e As Feras'', em 1996, só fiz depois de passar por uma batelada de testes. Fiz teste como todo mundo. Não tive pistolão. Quem não tem competência, não se estabelece. Pode até ser o filho do rei. Mas, se não souber se sustentar por si só, vai acabar caindo. Mais cedo ou mais tarde, vai acabar caindo.
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