‘‘Quero me governe um homem bom e justo, que cuide para que chegando a noite todo mundo vá dormir cedo e cansado com tanto trabalho que tinha pra fazer e foi feito. Quero ter o gosto de tirar meu chapéu pras autoridades e destampar meu caldeirão esmaltado, com quatro variedades, todo santo dia. (...)Sou do partido do homem’’.. Ao declamar esse fragmento do livro ‘‘Solte os Cachorros’’, da iluminada poeta e escritora Adélia Prado, a cantora Leila Pinheiro deu o tom político ao show ‘‘Mais Coisas do Brasil’’ apresentado sábado em Londrina. Foi um dos momentos mais tocantes do espetáculo que surpreendeu pelo domínio em cena e pela imediata empatia entre artista e público. O show faz parte do ‘‘Royal Golf in Concert’’, projeto da Teixeira & Holzzman Empreendimentos Imobiliários.
Leila mostrou-se sobretudo uma intérprete ao vasculhar várias facetas de sua personalidade artística – a visceral, a técnica, a instrumentista (ela recorreu ao teclado em algumas canções) e a cidadã politizada. Quase duas horas de espetáculo. A linha romântica alinhavou toda a apresentação através de comoventes interpretações como ‘‘Uma Dia, Um Adeus’’ (Guilherme Arantes), ‘‘Feliz’’ e ‘‘Palavras’’ (Gonzaguinha) ou ‘‘Canteiros’’ (Fagner - Cecília Meireles).
No entanto, Leila abriu-se a canções com outras conotações. Como a lírica ‘‘Luíza’’ (Tom Jobim), a pouco conhecida ‘‘Sucedeu Assim ’’ (Tom Jobim-Marino Pinto) ‘‘Reza’’ (Edu Lobo - Ruy Guerra) ou a recriação eletrônica de ‘‘Pecado Capital’’ (Paulinho da Viola). A dramaticidade veio com a releitura de ‘‘Se Meu Mundo Cair’’ (José Miguel Wisnick). O clima intimista foi quebrado com a recriação do divertido coco-embolada ‘‘A Mulher Que Virou Homem’’, de Elias Soares e de Jackson do Pandeiro, um ‘‘pandeirista bom da porra’’. A gravação mais recente foi de Edson Cordeiro, em 96.
Pelo nome da canção já dá pra imaginar o que aconteceu com uma certa Joana, que apesar de ter saúde, foi pra Hollywood fazer uma operação. De volta ao Brasil, diz ao marido que se chama João e quer conversar de homem para homem. ‘‘A música é de 61. Eu fico imaginando o que o cabra não viu’’, disse Leila arrancando gargalhadas da platéia.
Outro ponto positivo foi a escolha de um quarteto formado por Adriano Souza (teclados), Pedro Moraes (baixo), Erivelton Silva (bateria) e Sérgio Galvão – esse último aliás, com atuação competente nos sopros. ‘‘Mais Coisas do Brasil’’ veio a Londrina com vibração pop, ao contrário de outras apresentações mais sóbrias de Leila Pinheiro. Um espetáculo direto, mas nem por isso técnico. Noves fora, a emoção provaleceu.
Leila está mais leve, com gestos soltos. Mas foi com um olhar penetrante que Leila hipnotizou a platéia que a aplaudiu até mesmo quando teve um acesso de tosse – ah, esses aparelhos de ar-condicionado... Pelo jeito o reencontro com Londrina lhe rendeu boas recordações – ‘‘a fazenda de seo Fernando Cintra, onde fiquei tocada com tantas borboletas. Ficava com medo de os cavalos pisarem nas borboletas’’ – e caprichou no bis. Guitarra em punhos, cantou ‘‘Emoções’’ (Roberto- Erasmo) com a platéia rendida em coro – um certo tropeço na letra deve ser interpretado como estado de pura comoção.
O público gostou muito de ‘‘Mais Coisas do Brasil’’. Mas quem saiu satisfeita mesmo foi Leila que, dias antes do shows, disse que só cantaria ‘‘Verde’’ (Eduardo Gudin -Costa Neto), a música que a projetou, em ‘‘último caso’’. Ela tem razão: algumas canções necessitam, às vezes, de um certo descanso. Por motivos de força maior – no caso a emoção – ‘‘Verde’’ veio à cena a pedido da própria cantora. Quem melhor que o artista para saber se agradou ou não?

mockup