Versão de Boal para a ópera "Carmen" chega a SP para quatro apresentações
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quarta-feira, 17 de novembro de 1999
Por Beth Népoli 
São Paulo, 17 (AE) - A sambópera "Carmen", dirigida por Boal, chega a São Paulo para apenas quatro apresentações, a partir de amanhã (18), integrando a programação do 1999 - Reticências, evento cultural promovido pelo Sesc que reúne artistas nacionais e internacionais de diversas áreas da criação. "Carmen" estréia amanhã à noite no Teatro Sesc Vila Mariana depois de uma temporada de grande sucesso no Rio e de ter merecido uma crítica extremamente elogiosa no jornal "The New York Times" - uma atenção raríssima para um espetáculo em temporada no Brasil.
Segundo o crítico norte-americano, o diretor utilizou seus conhecimentos de química (Boal formou-se em engenharia química e drama pela Universidade de Columbia, E.U.A) para combinar dois elementos - ópera e samba - criando, assim, um terceiro elemento: a sambópera. Boal também considera a sambópera um novo gênero teatral, mas prefere outra reação química para defini-lo: amálgama. "Na combinação química, dois elementos unem-se para formar um terceiro muito diferente - se você juntar, por exemplo, ácido sulfúrico com zinco vai obter sulfato de zinco, que não é nem ácido, nem metal, mas um sal -, ao passo que no amálgama dois ou mais elementos se unem para formar um terceiro sem perder suas propriedades iniciais", explica.
O diretor ressalta três características fundamentais nesse novo gênero: amálgama de culturas, interferência na estrutura musical e tratamento cênico teatral. Em sua origem, "Carmen" é uma ópera criada por franceses - música de Georges Bizet, com libreto de Meilhac e Halévy, inspirada numa novela de Mérimée - que conta uma história ambientada na Espanha: a paixão de um soldado basco por uma cigana. O que o diretor fez foi acrescentar elementos brasileiros e africanos a essa mistura inicial.
"O resultado não é uma coisa homogênea, mas uma mistura de elementos culturais que conservam sua individualidade". Os figurinos das ciganas, por exemplo, remetem a Sevilha, mas seus colares também lembram os das baianas. O toureiro virou jogador de futebol, "o toureador virou goleador", mas ainda que vista uma camisa de jogador, seu figurino tem elementos de toureiro. "Não foi um acidente, é proposital; também não há definição exata de tempo e lugar".
A principal singularidade da sambópera reside, obviamente, na música, que sofreu o que Boal chama de operação cirúrgica. "A música tem três elementos: melodia, harmonia e ritmo", explica. "Conservamos as melodias originais, mas trocamos alguns ritmos por outros mais próximo de nós, como o samba; a "Habanera", por exemplo, a ária mais famosa, ganhou ritmo de tango africano". As harmonias também mudaram. "Embora as notas sejam as mesmas, a utilização de instrumentos como cuícas, pandeiros e agogôs com bandolins resultou em novas sonoridades.
Quanto ao tratamento cênico, a sambópera é um espetáculo teatral e não lírico. "Na ópera, muitas vezes os cantores ignoram a dramaticidade, o significado do que cantam", diz. "Em Carmen, os atores enfrentam o canto como sendo uma fala mais elaborada; eles cantam muito bem, mas a ênfase está nas relações dramáticas". Feliz com o talento do elenco, dos músicos e da equipe técnica, Boal planeja uma série de óperas, com a mesma equipe, entre eles o maestro e diretor musical Marcos Leite. "Já estou ensaiando "A Traviata", de Verdi, e gostaria de montar uma série de óperas, misturar Wagner e bossa nova, por exemplo, para firmar o gênero". Boal só precisa de patrocinadores para realizar seu intento. Ele foi convidado para dirigir um espetáculo no gênero em Nebraska, nos E.U.A. "Lá seria interessante fazer uma jazzópera, mas não tenho vontade; gostaria mesmo de trabalhar no Brasil". Serviço - "Carmen". Adaptação de Augusto Boal, Celso Branco e Marcos Leite para a ópera de Bizet. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 15,00. Teatro Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3147. Até domingo


