São Paulo, 03 (AE) - Parece mais uma visão do primeiro milênio que a previsão para o segundo: na aurora do novo século, multidões farão fila apenas para apreciar um rato. Ou melhor, um camundongo, Mickey, o protagonista de "Fantasia 2000", o novo desenho dos estúdios Disney que terá sua premiére mundial no dia 17 de dezembro no Carnegie Hall, em Nova York, ao som da Orquestra de Chicago, regência de James Levine e tendo como solistas, entre outros, a soprano Kathleen Battle e o pianista Yefim Bronfman.
Em janeiro, após apresentações com música ao vivo em Londres, Tóquio, Paris e Los Angeles, a nova produção entra em cartaz pelo globo, exclusivamente em cinemas Imax, o primeiro evento cinematográfico a ser lançado mundialmente nesse tipo de salas de exibição. Os brasileiros verão o novo musical da Disney apenas em junho. Roy Disney, o novo manda-chuva do império dos desenhos animados, sobrinho de Walt, está pessoalmente envolvido nessa nova empreitada, que pretende, baseado nos mesmos princípios do original (união de som e imagem), renovar quase por completo o clássico de 1940.
Serão sete novas criações (dirigidas pela fina flor dos estúdios, entre eles, Hendel Butoy) e o retorno, remasterizado, da célebre sequência de "O Aprendiz de Feiticeiro", com música de Paul Dukas, em que Mickey pena ao tentar domar vassouras e baldes com sua mágica fracassada, para fugir aos deveres de empregado de mago na limpeza do castelo. "Do mesmo modo que o filme original deu aos artistas do estúdio a oportunidade de explorar novas idéias e técnicas, os novos segmentos deste filme possibilitaram a uma nova geração de artistas ultrapassar os limites do meio e da própria imaginação", anuncia Roy Disney.
Os resultados desse trabalho ainda estão trancados a sete chaves, embora já se saiba que compositores cairão nas garras dos ilustradores Disney: Beethoven (Quinta Sinfonia), Respighi (Os Pinheiros de Roma), Gershwin (Rhapsody in Blue), Chostakovich (Concerto para Piano n.º 2), Saint-Saens (O Carnaval dos Animais), Elgar (Pomp and Circunstance) e, novamente, Stravinsky (O Pássaro de Fogo). E, é claro, Dukas (O Aprendiz) e Ponchielli (A Dança das Horas, no divertido balé entre jacarés donjuanescos e sedutoras "hipopótamas"). Original - O "Fantasia" original nasceu do desejo de Disney de voltar a lucrar com o seu camundongo, após o sucesso estrondoso, em 1937, de "Branca de Neve", que lhe rendeu, em tempos de Depressão, US$ 8 milhões. Reza a lenda que o desenhista, jantando sozinho em um restaurante, convidou o também solitário maestro Leopold Stokowski (então um símbolo cabeludo - literalmente - da alta cultura na frívola Beverly Hills) para a sua mesa, onde resolveram criar uma fantasia que ilustrasse peças eruditas.
A idéia de juntar forças com a intelligentsia elitista encantou o empresário, fruto de uma infância pobre e pouco afeito à cultura. As conversas entre maestro e desenhista são antológicas. Ao ouvirem juntos Bach, Disney, entusiasmado, disse que via imagens alaranjadas brotarem daqueles sons, ao que Stokowski, professoral, discordou: "Eu imagino algo roxo". Cogitou-se também em se convidar Rachmaninoff para tocar o seu "Segundo Concerto para Piano", embora o regente tivesse dúvidas de que o compositor aceitasse: "Ele é um homem encantador, mas muito esquisito".
Quando se imaginou que, talvez, Horowitz pudesse substitui-lo, o estúdio vetou: quem era esse tal de Vladimir, desafiaram. O próprio Disney confessava: "Eu não entendo nada de música, mas já ouvi falar um bocado desse Rachmaninoff". Também desconhecia quem era Igor Stravinski, mas, convencido pela sabedoria de Stokowski, topou usar "A Sagração da Primavera" no novo filme , sem saber que se tratava de um balé sobre virgens sacrificadas num ritual pagão. Hesitou igualmente porque preferia compositores mortos, que não cobravam direitos sobre suas obras. Mas ainda assim mandou um bilhete ao músico russo: "Ofereço US$ 5 mil para usar sua música; se, porém, o sr. se recusar, vamos usá-la assim mesmo".
Stravinski, furioso (mas não a ponto de perder o tino comercial preciso), assinou. Arrependeu-se amargamente ao ver sua composição como fundo sonoro de dinossauros, afirmando que o desenho era francamente imbecilizante. Ao lado da "Sagração", Disney usou ainda Bach, Mussorgski e a "Ave Maria", o movimento final do desenho. Ao que um crítico observou: "Nada é sagrado em Disney, nem mesmo o sagrado". Maravilhado com o que conseguira fazer com a "Sinfonia Pastoral", de Beethoven, plena de centaurinhos pulando alegres pelas pólis gregas, Disney previu: "Nossa, isso vai fazer de Beethoven um sucesso". Hum. Nem todos foram favoráveis ao projeto. Frank Loyd Wright, ao ver o filme, chamou-o de absurdo. O falso clima de sofisticação cultural, transbordando provincianismo e artificialidade, tampouco ajudou a que atingisse as massas.
Que não foram tomadas de entusiasmo para ver o desenho, o que provocou uma bilheteria fraca, num dos primeiros reveses do estúdio. Sem saber a quem culpar, Disney ficou furibundo quando o irmão, Roy, sugeriu-lhe timidamente que a escolha das música fora infeliz. "Nunca vou entender por que não podíamos colocar uma pitada de Tommy Dorsey nisso". Nem Pateta diria melhor. Isso obrigou o desenhista a correr o mundo em favor de "Fantasia".
Em 1941, veio até mesmo ao Brasil para promover sua nova criação, que estreou em benefício da Cidade das Meninas, com a presença do presidente da República, Getúlio Vargas, e sra. "Considero "Fantasia" o clímax de minha carreira", disse o desenhista à imprensa da época. Até mesmo Mário de Andrade encantou-se pela possibilidade revolucionária de um meio popular propagar a cultura elevada. Isso, sim, é que era fantasia.

mockup