Versace por ele mesmo
VERSACE
POR ELE MESMO
The Art of Being You tira o
estilista do pedestal, mas
é, ainda, uma bela homenagem
Guto Barra
Planet Pop/AE
Arquivo FolhaO estilista Gianni Versace com a top model Naommi Campbell: momentos de glória
C
ontinua o aproveitamento do legado de Gianni Versace. Depois da fraca exposição organizada pelo Metropolitan Museum of Art, em Nova York, no fim do ano passado, o último trabalho do estilista assassinado em julho de 97, chega ao mercado para relembrar sua arte. The Art of Being You, o livro concluído por Versace poucas semanas antes de sua morte, acaba de ser lançado nos Estados Unidos, trazendo uma série de colagens, fotografias e desenhos idealizados pelo italiano.
Se por um lado o volume ajuda a compreender a personalidade do estilista, ele também serve para dimensionar seu potencial criativo, passado o choque do assassinato à queima-roupa em frente à sua mansão de Miami. Versace era um bom estilista e estava no melhor momento de sua carreira, mas não era um gênio, como a tragédia acabou por elevá-lo. A morte do estilista causou comoção, principalmente porque ele era uma pessoa muito querida por seu comportamento amável. O lançamento de The Art of Being You, embora tenha textos emocionados de nomes como a editora da revista Interview, Ingrid Sischy, e do artista plástico Julian Schnabel, acaba tendo a função de tirá-lo do pedestal onde foi colocado.
Versace fez uma moda sofisticada, pop e sintonizada com sua época. Mas também criou estampas duvidosas, misturas de cores que só funcionavam para as clientes mais exageradas e clichês passageiros, muitas vezes cafonas. Assim como a maioria dos grandes nomes da moda, cometeu acertos e erros. É uma pena que o verdadeiro valor de suas criações tenha se diluído com o choque de sua morte, que ainda vai render outras inúmeras publicações não-autorizadas, retrospectivas oportunistas e filmes de segunda categoria.
Em The Art of Being You é possível enxergar Versace como ele era: falível. Se ele ainda estivesse vivo, provavelmente o livro teria sido percebido por poucos, assim como aconteceu com Man Without Ties, Do Not Disturb, Design e Rock & Royalty, seus lançamentos anteriores. O italiano gostava de reunir fotografias de suas campanhas (feitas por nomes de primeira categoria, como Richard Avedon e Bruce Weber), com imagens de artistas como Andy Warhol e Roy Liechtenstein e detalhes do ladrilho de sua casa. Ele transformava essas experimentações em encadernações de luxo que eram acessórios extras em suas lojas.
O problema é que, no caso deste lançamento, a obra é tão reveladora quanto um catálogo de coleção. O livro vai pouco além da simples compilação das preferências artísticas de Versace e também não reúne uma fatia substancial de seu trabalho fashion (o que também não aconteceu na exposição e no livro feitos por Richard Martin no Metropolitan). O estilista apenas brinca de fazer interferências nos quadros e esculturas que rodeavam seu universo, que acabavam influenciando suas roupas. O mais contraditório de tudo é que a moda de Versace era bem mais pop do que um livro sério como este.
The Art of Being You, ainda assim, é uma boa homenagem ao estilista. O livro consegue dimensionar o quanto ele era querido por seus amigos e familiares, mostrando que boa parte de suas conquistas se deve à sua capacidade de liderança. Ao ganhar a simpatia de estrelas de Hollywood e de nomes do mundo da arte, Versace influenciou o comportamento de uma fatia de pessoas interessadas por moda de uma maneira despretensiosa. O estilista deixou um legado que merece ficar intacto por algum tempo.





