"Vermelho Sangue" chega às locadoras
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quarta-feira, 14 de julho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 15 (AE) - Quando lançou seu "Vermelho Sangue", o diretor mexicano Arturo Ripstein ouviu que se tratava de um remake de "Lua-de-mel dos Assassinos", que Leonard Kastle fez em 1970. A história é a mesma. Um casal estranho mata mulheres ricas e solitárias. Elas são seduzidas pelo marido e depois assassinadas. Ripstein diz que conhecia o filme de Kastle (na verdade, o projeto original deveria ter sido dirigido por Martin Scorsese). Mas baseou-se, mesmo, num fait divers ocorrido no México. Quer dizer, a base de sua história é real, por incrível que ela possa parecer ao espectador.
Tudo é um pouco fake e exagerado em "Vermelho Sangue". Representa o diálogo do diretor com a tradição melodramática do cinema mexicano. Assim, Regina Orozco faz uma enfermeira lasciva
obesa, mãe de duas crianças e solitária. Um dia ela vira uma quase-vítima do aproveitador interpretado por Daniel Gimenez-Cacho. Ele se faz passar por sevilhano, responde a mulheres tristes que procuram companhia pelos anúncios de corações solitários e as alivia do seu dinheiro. Tenta fazer o mesmo com Regina, mas ela se apaixona por ele. Cria-se um verdadeiro caso de amor entre os dois.
Ela consente em tornar-se sua cúmplice e, a partir daí, o casal passa a agir. Não mais de maneira limpa, porque, ao interesse econômico, acrescenta-se o ciúme de Regina. Essa mistura de sentimentos com negócios justifica a escalada da violência a que se assiste na tela. Esse tipo de história pode ser contado à maneira naturalista, provável opção de Kastle. Ou, ao modo de Ripstein, que mescla realidade a um delírio cuja origem pode ser rastreada no seu currículo. Ele foi assistente de direção do genial Luis Buñuel em filmes como "O Anjo Exterminador" e "Simão do Deserto". Aprendeu com o mestre o valor (narrativo e simbólico) das situações de absurdo. Também do seu diálogo com Buñuel emerge sua notável capacidade de trabalhar com uma poética da sordidez.
Não por acaso a protagonista é gorda e tem vergonha disso. Cacho é calvo. Como ganha a vida por sua suposta semelhança física com o ator Charles Boyer, precisa usar perucas estilizadas. Sem elas, sente-se um monstro, um aleijão, uma deformação da natureza. Toda a história é permeada de culpa e miséria. As vítimas compõem uma variada fauna de solitários compulsivos. Há a alcoólatra que se recusa a envelhecer, mas sai pela rua caçando companhia para preencher a vida. Há também a religiosa fanática (uma genial Marisa Paredes) que não consegue esconder a lascívia da sua devoção. E, finalmente, a mãe também carente, que terá os filhos sacrificados em nome do seu desejo.
A narrativa é cruel, de uma violência contida e que se expressa mais pelo trabalho das cores que por atos explícitos. "Vermelho Sangue" é, acima de tudo, um magnífico trabalho de direção. Serviço - "Vermelho Sangue". México, 1997. Dir de Arturo Ripstein, com Regina Orozco, Daniel Gimenez-Cacho. Flashstar.


