Luis Fernando Veríssimo vai ter que se virar para driblar a timidez. Mais de mil pessoas já retiraram convites para assistir à sua palestra hoje, a partir de 19h30, no Teatro Marista em Londrina.
O evento faz parte do projeto ''Londrina, Literatura & Cidadania'', uma iniciativa da Books Livraria e Locadora de Livros, com apoio do Consórcio União, através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
Com fama de ser um sujeito de poucas palavras, o escritor gaúcho prefere transportar sua prosa para o papel, o que lhe garantiu intensa publicação em jornais e uma vasta produção literária com 73 livros publicados.
Filho do romancista Érico Veríssimo (1905-1975), Luis Fernando herdou do pai a influência da linguagem informal de escritores norte-americanos como John Updike e Scott Fitzgerald. Os comentadores costumam incluir o cineasta Woody Allen entre suas referências. A associação é reforçada pelas semelhanças de temperamento, além das incursões musicais de ambos.
Allen é conhecido por tocar clarinete, enquanto que o brasileiro já gravou discos tocando saxofone. A faceta como instrumentista, porém, é pouco divulgada assim como a vocação de gourmet. Já o talento para as letras revelou-se no final da década de 60, ainda que tardiamente, quando Veríssimo já entrava nos 30 anos.
Começou a escrever depois de tentar a sorte como tradutor e assumir várias funções na redação do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Não demorou muito, e o humor sutil e inteligente de suas crônicas alcançariam reputação nacional, especialmente com a invenção de personagens impagáveis como o ''Analista de Bagé'', ''Os Cobras'', ''A Velhinha de Taubaté'', ''Ed Mort'' e a ''Família Brasil''.
De lá para cá, o escritor e desenhista tornou-se uma das poucas unanimidades do país, o que lhe valeu o prêmio de Intelectual do Ano em 1997 pelo conjunto de sua obra. O sucesso levou-o à televisão, para a qual criou quadros para o programa ''Planeta dos Homens'' (Globo), além de fornecer material para a série ''Comédias da Vida Privada'', baseada em seu livro homônimo.
O cinema também requisitou a leveza de seu texto, adaptando Ed Mort com Paulo Betti no papel do anti-herói noir do autor. Em Londrina o escritor vai falar sobre sua obra, perspectivas para o mercado literário brasileiro, transição política e sobre seu próximo projeto um livro sobre o Internacional de Porto Alegre, time de seu coração.
A expectativa dos organizadores é de que os convidados contribuam com a doação de mais de uma tonelada de alimentos, que deverá ser distribuída para entidades beneficentes.
Você tem fama de ser um tímido incorrigível. Como faz para encarar platéias durante suas palestras?
Não tenho muito jeito para falar em público. É uma atividade meio forçada. Mas venho aceitando esse tipo de convite, porque é sempre uma oportunidade para promover o livro. Procuro fazer um bate-papo e responder as perguntas, mas confesso que não me sinto muito confortável.
Você começou a escrever em jornais em 1969. O humor já aparecia nos textos dessa época?
Quando comecei a assinar matérias em jornais, as crônicas que tinham mais repercussão eram as leves e bem-humoradas. Foi aí que procurei desenvolver o estilo, embora eu não seja um humorista do tipo que tem sempre uma piada pronta. Sou um péssimo contador de piadas.
Como anda o humor no Brasil?
Embora o país não tenha uma tradição de humoristas de texto, vive uma boa fase, especialmente por causa dos cartunistas.
A política é a principal matéria-prima para quem escreve humor no Brasil?
Ela é sempre assunto. Permite ao escritor fazer humor com comentário político, sátira e ainda ser testemunha dos acontecimentos.
Você acha que o próximo presidente da República será de esquerda?
Um é de esquerda; o outro, não se sabe. Talvez tenha chegado a hora do Lula. Eu vou votar por hábito. Pela quarta vez, vou votar nele. Vou ver se acerto desta vez.
O que você responde para aqueles que consideram a crônica um gênero menor?
O Brasil já teve grandes escritores que nunca escreveram outra coisa a não ser crônica. Rubem Braga, o Antônio Maria e o Paulo Mendes Campos embora este tenha escrito poesia também são provas disso. Agora o melhor da crônica é que ela é um gênero indefinido, podendo ser um conto, um comentário ou um texto mais ou menos lírico. Ninguém conseguiu defini-la até hoje. O interessante é a liberdade que ela permite ao escritor.
Você escreveu dezenas de livros, mas apenas três romances...
O grande problema do romance é que para escrevê-lo precisamos de tempo para desenvolvê-lo. E isso é difícil para quem escreve diariamente para jornais. Mesmo assim, consegui escrever três.
O que você acha dos escritores da nova geração gaúcha como Daniel Galera e Daniel Pelizzari, que estão publicando seus livros pela editora Livros do Mal?
Já ouvi falar muito deles. Mas não estou tendo tempo para me dedicar a leitura por prazer. Tenho lido mais os diários e textos de formação. Estou desatualizado em ficção.
Há poucas semanas tivemos mais uma eleição para a Academia Brasileira de Letras. Você ambiciona concorrer a uma cadeira de imortal?
Tem gente respeitável na Academia: o João Ubaldo Ribeiro, o Carlos Heitor Cony e mais alguns. Não vejo problema em quem acha importante concorrer a uma cadeira de imortal. Não tenho nada contra, mas não me interesso.
Serviço:
Hoje: Palestra-debate com Luis Fernando Veríssimo. Horário: 19h30. Local: Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 240). Informações e retirada de convites: Books Livraria - Tel. (43) 321-1126.

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