Verissimo anuncia fim de "As Cobras"
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sexta-feira, 05 de fevereiro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 05 (AE) - Domingo, 24 anos após tê-las tirado dos seus ovos, o escritor, humorista e cartunista gaúcho Luis Fernando Verissimo vai descer o porrete nas suas "Cobras". Os personagens toscos, quase minimalistas, criados por Verissimo na imprensa gaúcha para ridicularizar a situação sociopolítica nacional, chegaram à sua encruzilhada derradeira e morrem na edição de domingo do "Caderno 2" do jornal O Estado de S.Paulo.
Seu carrasco é o próprio cartunista, que o faz por uma razão quase tão mínima quanto o desenho que celebrizou: "Estou tentando trabalhar menos", afirmou Verissimo, laconicamente, na antevéspera do "assassinato", na sexta-feira à tarde. "Depois, um homem de 62 anos ficar desenhando cobrinhas o resto da vida não pega muito bem".
"As Cobras" é um verdadeiro haikai do quadrinho nacional, um desenho até besta de tão simplista - e era justamente aí que residia seu encanto, pela capacidade de encenar situações complexas em espaço reduzido. "Elas surgiram porque eu sempre gostei muito de desenhar, mas nunca desenhei muito bem", afirmou o desenhista em julho de 1980 ao jornal "Zero Hora", de Porto Alegre. "Cobra é fácil de desenhar porque não tem mão, só pescoço e uma cabeça", confessou.
Mas não é porque tenham ficado obsoletas ou demodê que o escritor se tenha decidido pelo seu sacrifício. "É uma decisão pessoal", diz Verissimo. "Mas o fato é que é uma decisão definitiva, elas não vão voltar", acrescenta, para desespero dos fãs dos sarcásticos ofídios.
Segundo Verissimo, "As Cobras", com seu "desenho rudimentar", sempre foi um "pretexto para a piada". Na época em que começou a desenhá-las, na metade dos anos 70, acabara de publicar o livro "A Grande Mulher Nua", pela editora José Olympio, e estava começando a assinar uma crônica dominical no Caderno B do "Jornal do Brasil".
A primeira coletânea das tiras já foi um sucesso imediato, com filas de fãs nas feiras de livros para pedir um autógrafo de Verissimo, dublê de saxofonista nas horas vagas e um tímido contumaz. Situação estranha para um escritor que acaba de ser reconhecido nacionalmente - por críticos como Wilson Martins - como uma das grandes surpresas da década.
Na verdade, a modéstia de Verissimo acerca de seus talentos como desenhista esconde um talento bem razoável. Ele parece ter-se inspirado mais claramente no desenho e nas charges do americano Jules Feiffer, também econômico no traço e dividido entre as letras e a ilustração - um acaba por tornar-se extensão do outro.
"Na charge, no desenho, se diz coisas que no texto não daria", disse o autor nos anos 70. "Isso vem do respeito quase religioso que as pessoas têm pela palavra, a impressa principalmente". Nos anos 70, havia ainda um outro motivo fundamental para diluir a acidez crítica em cartuns e desenhos: a pressão política exercida pela ditadura militar.
Foi num jornal clandestino de Porto Alegre dos tempos do governo militar que ele começou a exercitar o humor na publicação Pato Macho. "Fui meio que empurrado para esse lado", costuma dizer Verissimo.
Autor de "Jardim do Diabo" (único romance), de "A Comédia da Vida Privada" (dois livros de contos e uma série de televisão), ele também foi o criador do megassucesso "O Analista de Bagé", que vendeu mais de 1 milhão de exemplares e tem uma versão teatral que já entrou no Guinness pela longevidade.
Verissimo rompeu as fronteiras do humor em direção a todas as mídias, incluindo a televisão e o cinema - com a adaptação de Ed Mort, levado às telas com Paulo Betti como o anti-herói noir do autor.


