São Paulo, 14 (AE) - Na Bahia, onde morou mais de 50 anos, Pierre Verger conheceu os orixás. Ao estudá-los - suas origens e sua sobrevivência em terras brasileiras - , tornou-se babalaô, palavra nagô que significa pai do segredo. Nos anos 50, fez três viagens à áfrica, sobretudo à região da Nigéria (origem da nação ioruba, ou nagô) e do Daomé (hoje Benim, onde se concentra a nação jeje), confrontando as práticas religiosas afro-brasileiras com suas manifestações de raiz. O esforço resultou nas "Notas sobre o Culto aos Orixás e Voduns", publicado em 57 pelo Instituto Francês da áfrica Negra e finalmente apresentado em português pela Edusp (com tradução de Carlos Eugênio Marcondes Moura, 624 págs., R$ 75).
Os 42 anos passados desde a publicação original são denotativos da pouca importância que a academia brasileira dá à cultura afro-brasileira. No prefácio, Verger é apresentado como "minerador paciente" - não escreveu uma tese de doutorado, mas desenterrou as pedras: "Chegará o dia em que um arquiteto, com essas pedras, construirá um edifício", lê-se. Ainda não se construiu.
A intenção de Verger foi comparar as manifestações dos cultos prestados nas Américas a determinados deuses africanos, vindos para cá com o tráfico de escravos, e as manifestações nos países de origem. Concentrou seus esforços nos dois maiores grupos - em primeiro lugar, os jejes, depois os nagôs, ou iorubas. Percebeu que, nos países de origem, as pessoas sabiam que negros de sua nação haviam sido levados para longe, mas não sabiam nada sobre elas. Apresentou fotos, mostrou cantigas rituais. "Eram as primeiras notícias que recebiam dos primos", escreve. "A fidelidade que estes prestavam às crenças de seus antepassados as tocaram enormemente."
Verger avalia que essa fidelidade foi, não intencionalmente, resultado de medidas tomadas pelos governo e pelos senhores de escravos brasileiros. Temerosos de que os escravos se unissem, ignorando diferenças e antigos litígios, incentivavam os batuques, que faziam afluir orgulhos nacionais. Cita o conde dos Arcos, em escrito do século 19: "O governo (...) olha para os batuques como para um ato que obriga os negros (...) a renovar idéias de aversão recíproca."
Pierre Verger pretendeu levantar a capa sincrética - o sincretismo, escreve, foi, durante um tempo, apenas máscara, mas tornou-se sincero: novas gerações "crioulas" (as aspas são dele) passaram a considerar que santo católico e orixá eram um só, mudando apenas o nome. Um manto: "O caráter de brandura que assumem as relações entre brancos e negros no Brasil e na Bahia, em particular, se refletem nessa áfrica do Brasil. Ela se mostra afável e cordial, mas tão ciosa quanto a própria áfrica de seus segredos, que sabe preservar admiravelmente."
É para os segredos que lança o olhar estudioso e, como resultado do estudo, oferece definição profunda dos deuses e dos cultos. "Notas sobre o Culto aos Orixás e Voduns" estuda o tráfico de escravos, a definição do candomblé ("Trata-se de tradições mantidas com tenacidade, que deram - aos escravos - a força de continuar sendo eles mesmos, apesar dos preconceitos e do desprezo de que eram objeto suas religiões, além da obrigação de adotar a religião de seus senhores") , a iniciação religiosa
o estado de transe; detém-se na descrição de divindades, transcreve textos e cantigas, estabelece gigantesco e carinhoso tratado da formação da cultura brasileira, completado por fotos feitas no País e na áfrica.

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