Vergara mostra trabalho de dez anos na Pinacoteca, em SP
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sábado, 06 de novembro de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 07 (AE) - A libertação do pintor gaúcho Carlos Vergara da idéia do sublime na arte não foi nada fácil. Ele - paradoxo - teve de voltar a lugares marcados pela escravidão para abandonar sua pintura predisposta à sublimação. Há dez anos viajou pelas terras de Minas Gerais, engoliu o pó da estrada, encheu o pulmão de óxido de ferro e acabou produzindo telas gigantescas em que o gesto expansivo do pintor foi substituído pela retração do gravador.
Vergara imprimiu as marcas dos pigmentos de uma cerâmica em Rio Acima, entre Belo Horizonte e Ouro Preto. Como um sudário
registrou um fragmento da paisagem mineira com esse mineral amorfo, a limonita, hidróxido de ferro natural usado para fazer pigmento amarelo. Continuou o procedimento por dez anos. Agora, o resultado dessa pesquisa ocupa cinco salas da Pinacoteca do Estado, que também abre amanhã (08) a exposição do escultor espanhol Miquel Navarro.
Não há nada em comum entre a pintura de Vergara e as cidades criadas por Navarro, a não ser o fato de o escultor valenciano usar peças de ferro oxidado. Mas, enquanto Vergara rejeita a metaforização, Navarro incorpora a alegoria. Para o espanhol, o óxido de ferro é um elemento de redenção. Remete à origem e tem comportamento alegórico (passagem do tempo, transformação, deterioração, transcendência). Vergara tem comportamento tautogórico. Sua organização traduz uma crise mitológica que Navarro não tem como europeu.
A exposição de Vergara reúne 30 telas em técnica mista produzidas nos dez últimos anos, ele que comemora 35 anos de carreira desenvolvendo novas monotipias, desta vez no Rio, onde mora. Há dez anos, diz, estava esgotado da pintura abstrata. "Era incômoda, virou bolero, receita culinária", justifica. Em Minas, descobrindo o pigmento que barrocos como Mestre Athayde usaram, Vergara ficou impressionado não com as formas volantes, mas com o residual de um mundo ancestral, não ameaçador ou hostil. Não retomou a figuração ao realizar essas monotipias em que ficam registrados muros de senzalas ou portas de mercado. Usou o figurado apenas como pretexto.
Não interessava a Vergara uma representação naturalista. Quando viajou há quatro anos como convidado a refazer a expedição Langsdorff, notou que nem mesmo os artistas incorporados à missão há um século eram fiéis ao mundo que viam. Hoje, segundo Vergara, "a pintura tem de justificar sua existência nesse mundo pulverizado, globalizado". É preciso repensar a idéia do sublime. "Mesmo sendo monotipias, estou longe da idéia do ready-made, porque essas telas rejeitam a narrativa, são registros da pele do mundo", diz.
Vergara já fez monotipias com patinhas de animais, deixando que jacarés do Pantanal pintassem sobre a lona, como Yves Klein fez nos anos 60 com suas modelos nuas que deslizavam sobre telas. É conveniente lembrar que o procedimento de ambos não é moderno, mas quase uma reprodução da esperteza dos celtas que, tentando copiar moedas gregas, acabaram cunhando as primeiras obras abstratas.
As últimas telas, reconhece, acabaram sucumbindo à densidade. O território foi ocupado por todas as lembranças da paisagem mineira e, agora, está na hora de limpar o campo. Não por outra razão, a monotipia da carioca Praça 15 abandona essa teatralização pop e volta ao marco zero desse trabalho, em que a limonita virgem convive com a calcinada, afirmando a ação do homem sobre a natureza. Serviço - Carlos Vergara e Miquel Navarro . De terça a domingo, das 10 às 18 horas. R$ 5,00 (5.ª, grátis). Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, tel. 229-9844. Até 18/12. Abertura, às 19 horas
para convidados.


