Para João Guimarães Rosa, o sertão é o sozinho, mas também está em todo lugar. Onde vive o sertanejo, diáfano como cristal misterioso, que o grupo paulistano Nhambuzim desvenda um pouco mais em cada uma das 17 faixas do CD de estréia ''Rosário: canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa'' (Paulus).
Inspirado na obra do escritor mineiro, o CD é um bocado a mais de poesia cabocla numa releitura musical do autor - sem querer dizer que é possível faltar algo de lirismo à literatura de Guimarães Rosa.
O próprio escritor afirmava que, às vezes, acreditava ser João, um conto contado por ele mesmo. No CD, o autor se deixa cantar pelos delicados arranjos vocais do grupo, que resgata uma tradição antiga da música brasileira.
Formado por André Oliveira (percussão), Edson Mota (voz e berrante), Itamar Pereira (baixo), Joel Teixeira (voz, violão e viola), Rafael Mota (percussão), Sarah Abreu (Voz) e Xavier Bartaburu (piano e arranjos vogais), ''Nhambuzim'' contou com as participações de Gabriel Levy, um dos maiores acordeonistas do País, e Paulo Freire, violeiro e escritor que cedeu a uma paixão por Guimarães Rosa, que o levou até Urucaia, em Minas Gerais, aprendendo a tocar com os grandes mestres da região. O cantor e baterista Renato Braz também é destaque no disco em músicas como ''Nonada de Mim''.
O centenário de nascimento do escritor recebe Nhambuzim em suas veredas. Nelas, o grupo, urbano de nascimento, encontra o sertão por adoção.
Filhos de uma sonoridade de variadas influências, agregando-se a uma família de instrumentos regionais, como a viola e o berrante, o primeiro rebento do Nhambuzim, ''Rosário'', é um menino bonito, parrudo e que dá gosto de ouvir.
O mundo, que está em toda parte, de ''Grande Sertão: Veredas'', abre um botão em flor na música ''Outras Rosas''.
''Há uma flor no meio do caminho'', repete incessantemente o refrão. É ela, Nhorinhá, a prostituta que, na obra do escritor representa o amor físico, com um cheiro de profano e sensual.
Os versos vão andando com as mãos nas cadeiras até lembrar de Diadorim, a figura do amor impossível, proibido, que tem os braços em forma de desejo e repulsa.
''Diadorim, damo da guerra, dos opostos/Vinganças turvas, é/Amor calado, foi/Querer profano''.
O repertório traz composições próprias e duas pertencem à tradição oral do norte mineiro, entre elas ''Aboio'', originalmente cantada pelo vaqueiro Manuelzão, que comandou a comitiva que pôs Guimarães Rosa no caminho de um reencontro com o sertão.
Outros compositores também estão no CD, como Milton Nascimento e Caetano Veloso em ''A Terceira Margem do Rio'', que foi gravada pelos dois, e ''Sagarana'', de João de Aquino e Paulo César, que já contou com a voz de Clara Nunes.
O nome do grupo, criado em 2002, faz alusão ao nhambu, uma ave típica do cerrado, que o povo do sertão tem em alta conta. Uma lenda indígena diz que a filha da Cobra Grande teria criado o nhambu para separar o dia da noite.
Um pássaro cantador. Uma ave que pia no fim da tarde. Um nome inspirador que pousou bem de mansinho para fazer a gente cantar junto, enquanto se encanta com as músicas inspiradas nas veredas de Guimarães Rosa.

SERVIÇO
- Rosário: canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa
Grupo - Nhambuzim
Gravadora - Paulus
Quanto - Preço sugerido - R$ 30

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