Em março de 1976, o cineasta Luchino Visconti não teve seu último desejo realizado. Ele queria que escrevessem em seu túmulo uma singela síntese pessoal: ‘‘Amava Verdi e o melodrama’’. A aproximação entre os dois gênios da arte italiana se originava no apego desenfreado a um dos gêneros mais valorizados no auge do romantismo: o melodrama.
Partindo desta vertente melodramática, o pianista londrinense Marco Antonio de Almeida, radicado na Alemanha há 20 anos, resolveu homenagear o maior compositor de óperas da Bota em um formato pouco usual: uma ‘‘Opera pocket’’, ou de bolso, como define. O espetáculo ‘‘Viva Verdi’’ acontece amanhã, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina.
‘‘Como homenagear Verdi sem realizar uma ópera?’’ justifica Almeida, que logo se lamenta da penosa realidade dos teatros londrinenses: ‘‘Não há como apresentar uma ópera em seu formato tradicional. Precisaríamos de um fosso para a orquestra, o que não existe na cidade’’.
A solução encontrada foi selecionar quatro obras expressivas do forte gênio italiano que expressou a alma italiana como poucos, ao lado de Leopardi, Da Vinci e Michelangelo. O músico convidou quatro das melhores vozes brasileiras para tentar atingir universo lírico tão intenso: a soprano Cláudia Riccitelli, a mezzo soprano Céline Imbert, o tenor Rubens Medina, o barítono Paulo Szot e o pianista Achille Picchi. ‘‘Todos consagrados nacionalmente’’, observa Marco Antonio. Riccitelli, por exemplo, foi convidada para integrar a Filarmônica de Berlim pelo regente Claudio Abbadio, justamente para interpretar ‘‘La Traviata’’. Imbert já cantou com as orquestras da Filadélfia, Texas, sendo vencedora do prêmio Carlos Gomes no ano passado. Szot já integrou a Ópera de Varsóvia, enquanto Medina é considerado um dos melhores tenores do País. Picchi ‘‘transforma o piano em uma orquestra’’, afirma Marco Antônio, acrescentando que o pianista tem um dom natural para acompanhar cantores. Picchi, aliás, irá abrir a noite com uma transcrição própria que fez de um prelúdio de Verdi.
Segundo Almeida, antes de Giuseppe Verdi (1813-1901), a ópera italiana não havia amadurecido: ‘‘Havia Bellini, Donizetti... Mas foi com Verdi que a ópera conseguiu representar o espírito nacional do povo italiano mostrando a ânsia de liberdade nas guerras pela Unificação’’. Esta época turbulenta na Europa, retratada por Giuseppe di Lampedusa em ‘‘Il Gattopardo’’ (filmado em 1966 por Visconti), é marcada pelo intenso romantismo, outra característica intrínseca às obras de Verdi. O desenvolvimento do impulso dramático era fortalecido pelo subjetivismo e centralização no eu, o que facilitava a identificação do povo com os heróis das obras de Verdi. O ‘‘Maestro do Risorgimento’’ era aclamado pela nação em tom uníssono: ‘‘Viva Verdi’’, uma ambivalência que na verdade significava ‘‘Vittorio Emmanuele, Re D’Italia’’.
As obras mais conhecidas do compositor que, assim como Franco Zefirelli, enveredou pela política (nomeado deputado e senador), são da segunda metade do século XIX: ‘‘Ernani’’, ‘‘Aída’’ (homenagem à abertura do Canal de Suez), ‘‘Un Ballo in Maschera’’, ‘‘Othello’’ e ‘‘Falstaff’’ (as duas últimas baseadas em Shakespeare). Marco Antonio selecionou quatro árias de outras óperas também grandiosas: ‘‘La Traviata’’, ‘‘Il Trovatore’’, ‘‘Don Carlos’’ e ‘‘Rigoletto’’.
A obra mais célebre de Verdi, para alguns comentadores, seria ‘‘La Traviatta’’, apesar do fracasso estrondoso de sua estréia. É a história da jovem cortesã Violeta, que, em meio a uma doença fatal, se vê dividida entre o verdadeiro amor e a frivolidade dos amores imediatos. Almeida destaca nesta ópera a ária ‘‘Sempre Libera’’, momento propício para a soprano destilar a agudez psicológica da persoangem por meio de sua voz.
Na segunda parte de ‘‘Viva Verdi’’, mais um enredo trágico - ‘‘Il Trovatore’’. O libreto elaborado por Salvatore Cammarano foi baseado na peça do dramaturgo espanhol Antonio Garcia Gutiérrez, apresentando a velha cigana Azucena, que desde a juventude está dividia entre o amor ao seu suposto filho Manrico (o trovador) e o desejo de vingar a morte de sua mãe.
‘‘Don Carlos’’ é uma ópera épica, define Almeida. Inspirado no drama histórico do grande Friederich Schiller, ambienta a guerra entre a França e a Espanha no século XVI. A cena a ser apresentada envolve a ária com a princesa Eboli, dama de companhia da rainha da Espanha, que amaldiçoa sua própria beleza e a crueldade de seu destino.
Para encerrar, o terceiro ato de ‘‘Rigoletto’’, preparado para um quarteto. Baseada na peça Le Roi s’Amuse, escrita por Victor Hugo, relata as aventuras amorosas do duque de Mantua, que tem no bufão Rigoletto (irônico e mordaz) um eterno cúmplice. Esta ópera cômica tem seu clímax no trecho ‘‘Bella figlia dell’amore’’, em que cada voz expressa livremente o caráter de seus personagens.
‘‘Viva Verdi’’, projeto orçado em aproximadamente R$ 25 mil, foi patrocinado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e A. Yoshi Engenharia. O apoio cultural foi da Jabur Informática, Crystal Palace Hotel, Maceratti Água Mineral e Café Londrinense.
• ‘‘Viva Verdi’’, árias, duetos e quartetos das mais famosas óperas de Giuseppe Verdi. Direção Geral: Marco Antonio de Almeida. Músicos convidados: Cláudia Riccitelli, Céline Imbert, Rubens Medina, Paulo Szot e Achille Picchi. Amanhã, às 20h30, no Cine-teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. Ingressos: R$ 15,00 (na hora), R$ 10,00 (antecipado) e R$ 7,50 (estudante e aposentado).

mockup