Verde paixão
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de janeiro de 1998
Celina Alonso Az 
Maringá
Parece um oásis, uma bênção para quem viaja pelo escaldante noroeste do Estado. E, se depender do respeito que seus habitantes demonstram ter pelo verde, Maringá será sempre o pulmão da região. E não é só uma estratégia de marketing como acontece em outros lugares onde o verde é só de fachada. Para comprovar, basta entrar na cidade. Ninguém anda um metro sem contemplar árvores de copas enormes - uma para cada três habitantes - e canteiros de flores em todas as avenidas principais. Não é por menos que o maringaense passa quase todo o seu tempo de lazer desfrutando das 119 praças, 13 parques e milhares de jardins. E ai do visitante que tocar numa só folhinha. De onde vem essa paixão pelo verde que tanto orgulha a gente de Maringá?
Quando o jardineiro Geraldo Pinheiro, 77 anos, chegou ao povoado em 1946 para a construção da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, que deu origem à cidade, já amava a natureza, mas a paixão pelo verde de Maringá foi brotando. Ele lembra que desde o traçado básico da cidade havia uma preocupação com a arborização. A legislação determinava que cada lote deveria ter uma árvore plantada. A preservação dos dois bosques principais deveria ter a forma de pulmão, para garantir o ar puro porque mesmo naquela época, nas grandes capitais a poluição já era uma ameaça.
Depois de plantar muito e de formar o primeiro viveiro de mudas de árvores e de espécies ornamentais para a cidade que nascia, Geraldo Pinheiro brigou muito para a preservação de tanto verde. Chegou a discutir feio quando quiseram construir um sanitário numa praça, eliminando as palmeiras centenárias. Seo Pinheiro ganhou e as palmeiras ainda estão ali, firmes e fortes. Hoje, aposentado, todo esse amor ele passa através dos versos: Maringá, te conheci tão criança/ Se te fui útil não sei/ Mas deixo a minha lembrança/ Nas árvores que te plantei.
A semente da semente Maringaense tem mania de plantar. Não se sabe ao certo se um pouco é por causa da forte presença japonesa, especialistas em agricultura, tão importante na formação da cidade. Mas, desde pequenos, seus habitantes se interessam pelas árvores. Vimos uma discussão entre uma menina e seu colega voltando da escola. Ela arrancou um galhinho de uma árvore e ele respondeu a fuzilando com os olhos: Gostaria que arrancasse um pedacinho de você?
Somente no Parque do Ingá, administrado pela Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura de Maringá, o mais importante patrimônio natural da cidade, cerca de 150 crianças visitam diariamente os 47 hectares de mata nativa conservada. Recentemente, um grupo de crianças plantou 26 mil mudas de árvores num único dia. Foi uma festa para a criançada, que desde cedo já sabe distinguir uma tipuana de uma sibipiruna.
A bióloga Lídia Maróstica, filha do jardineiro Geraldo Pinheiro, aprendeu com o pai esse amor pelo verde. Hoje ela administra o Parque do Ingá e procura respeitar o verde sempre atenta às normas internacionais de preservação ambiental. Raramente acontece, mas quando precisamos cortar uma árvore condenada porque apodreceu na raiz é uma tristeza. Muita gente corre em defesa e só se acalma quando a convencemos de que era necessário.
Até a fiação elétrica da cidade foi totalmente reestruturada para proteger as árvores das podas constantes. A rede de alta tensão ganhou fiação compacta de apenas 40 centímetros - antes tinha quase dois metros de altura - só para manter quase intactas as copas das árvores da cidade. É engraçado porque muitas árvores têm a copa em formato de um V para poder passar a fiação por dentro dos galhos.
Mesmo assim há quem reclame. O juiz de futebol Jaime Guerra criou recentemente o Movimento em Defesa do Meio Ambiente de Maringá - MODEMA, ainda com poucos associados, e começa a brigar por causa do verde da cidade. Apesar da fiscalização, muitas vezes fazem cortes abusivos de árvores e não replantam outras no local. Há pouco tempo, cortaram duas mil árvores condenadas e com os troncos vendidos repassaram os recursos para o Provopar. Tenho medo que essa medida estimule o corte de árvores, alerta Guerra. Ele elogia a atitude da Prefeitura de estar retirando as muretas de proteção às árvores. Ficava parecendo uma lata de lixo que acabava prejudicando as raízes.
Verde animal Nos fins de semana, quando o maringaense não está caminhando em volta da Catedral ou do parque do Ingá, está brincando em alguma das praças. Em todos os contornos das avenidas, os redondos, existe uma pracinha. A praça do aeroporto, dentro do espírito, é a preferida de quem quer empinar pipas aos sábados. A praça da Catedral é a melhor para bater uma bolinha aos domingos. No seu enorme gramado desfilam famílias inteiras de bicicleta, roller, ou simplesmente desviando das redes de vôlei, é a praia de domingo. A criançada adora andar nos pôneis da praça da Catedral.
Depois, para descansar, o domingo termina com um passeio pelo Bosque 2, para dar comida aos macacos. São dezenas de alegres macaquinhos. Eles parecem embaixadores maringaenses. É só chegar um turista que é levado para conhecer o recanto onde as crianças deliram quando os macaquinhos vêm comer na mão e depois voltam para as árvores.
Os esquilinhos que correm soltos com as cotias do Parque do Ingá também adoram receber visitas. Em novembro, um mês antes das férias, cerca de 90 mil visitantes passaram por eles e os alimentaram.


