Verdades e mentiras nos seriados de tevê
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O mais inteligente dos agentes secretos dos seriados de TV, MacGyver, faria miséria se tivesse ao alcance uma bolsa de mulher, já que apenas com o seu famoso canivete suíço e um clipe seria capaz de desarmar um míssil. Os heróis das novas séries, como CSI, Law & Order, Lost, House e The Good Wife, não devem nada para o personagem do ator Richard Dean Anderson, conquistam audiência e se tornam um negócio altamente rentável para as produtoras. Mas, o que é factível nesses novos seriados e o que não passa de absurdos, contrariando todas as leis da realidade?
A favor de McGyver um currículo invejável, o que ajuda a dar coerência às gambiarras que faz para se safar das piores enrascadas. O mister Profissão: Perigo é graduado em Física numa escola técnica fictícia chamada Western Tech.
O que dizer então das técnicas nada ortodoxas do doutor House, um médico que não confia em ninguém? Um infectologista que ainda por cima é viciado em um analgésico à base de morfina?
Os superpoderes da equipe do doutor House conseguem dar jeito em qualquer coisa, mas não sobrevivem ao dia a dia de um infectologista da vida real, como o médico londrinense André Luiz Bortoliero. Fã do seriado do doutor mais marrento da TV, Bortoliero aponta os erros da rotina médica da série.
''O seriado é muito fantasioso. A equipe do doutor House faz todos os exames, desde os de laboratório, imagem, como ecocardiograma. Também a relação dele com os pacientes não é real. Hoje você conversa com o paciente, explica o que vai fazer'', afirma Bortoliero.
O médico londrinense destaca que House faz diagnósticos no chute, iniciando tratamentos agressivos nos pacientes.
''Na prática não é assim. Não fazemos nada sem ter confirmação. Em muitos episódios em que os pacientes precisam de transplante, a equipe consegue órgãos no mesmo dia. Aonde se arruma um fígado ou um coração com essa rapidez?'' questiona o médico.
Com dois protagonistas na lista da revista Forbes dos atores mais bem pagos das séries de TV em 2009 - Mariska Hargitay e Chirstopher Meloni, ambos faturaram US$ 400 mil por episódio - Law & Order: Special Victims Unit (Law & Order: Unidade de Vítmas Especiais) também recebe a sentença: contra fatos reais não há argumentos.
A série policial norte-americana, que estreou em 1990, é uma das que está há mais tempo no ar. O piloto do seriado foi produzido em 1988 para a CBS, que rejeitou o projeto.
O advogado londrinense Marcos Ticianelli, professor de Direito Penal na Universidade Norte do Paraná (Unopar) não deixa de assistir a série, antes de dormir, e diz que o seriado desperta confusões até em alunos dos primeiros anos do curso de Direito.
''Nos Estados Unidos, como é mostrado na série, a maioria dos delitos é submetida ao júri. No Brasil só homicídios. No sistema norte-americano, o policial vai atrás da informação. Os investigadores param as pessoas na rua. Ninguém vai presta depoimento formal. No Brasil, a polícia precisa chamar a pessoa para ir à delegacia. É um entrave formal grande. Existe um projeto de reforma do Código Penal em que uma das mudanças é esta. O policial poderá colher as informações na rua'', comenta Ticianelli, lembrando que o nome da série, Law & Order, é emprestado de um movimento filosófico penal.
Um dos grandes méritos do seriado é que os roteiristas bebem no noticiário e em temas como terrorismo, delinquência juvenil, entre outros.
''O seriado também dá ênfase na solução dos casos. Eu não acredito nisso. Acho uma falácia. O seriado mostra um departamento inteiro em um crime. Não acredito nisso. Os americanos também têm índices de não solucionados e de crimes não conhecidos pela polícia'', acrescenta Ticianelli, apontando que o seriado mostra que as pessoas ficam detidas por um determinado tempo em mecanismos que considera mais fortes que os brasileiros, que devem ser compreendidos também pelo aspecto histórico de um país que passou por um período de ditadura militar.
Ticianelli também assume a defesa da série e propõe outros argumentos: ''Se as novelas fossem mostrar a vida realmente como ela é, eu acho que não dariam audiência''.


