"Verão Feliz", de Takeshi Kitano, é um dos destaques da Mostra de Cinema
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de outubro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 15 (AE) - "Verão Feliz" (amanhã (16), 18h15 no Cinearte) é, possivelmente, uma das atrações mais intrigantes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Primeiro, porque se afasta muito do estilo do seu diretor-ator Takeshi Kitano - aquela mistura fina de violência e ternura presente em filmes como "Sonatine" e "Hana-Bi - Fogos de Artifício", que parecem inspirados num poema de Mário Faustino que Gláuber Rocha adorava. Em "Verão Feliz" não há violência. Há, sim, muita ternura, mas implícita, de baixa temperatura, implícita.
Kitano vive Kikujiro, um adulto que se encarrega de guiar um garoto de 9 anos, Masao, em busca de sua mãe. Nesse road movie sentimental (e um tanto chegado ao humor pastelão), o adulto tentará entreter e alegrar uma criança infeliz com suas palhaçadas. Parece ingênuo à beça, visto assim de repente. E não deixa de ser, em certo sentido. Tão ingênuo, na aparência, quanto, por exemplo, "Madadayo", último longa do mestre Akira Kurosawa. Quer dizer: tanto um como outro são falsamente pueris. Simplesmente decidem tratar de sentimentos simples, como um pintor que resolve utilizar somente cores primárias.
Em "Madadayo" era um velho mestre em relação com seus discípulos. Em "Verão Feliz", há um adulto que faz as vezes de pai para uma criança sozinha. Tudo, no filme, conduz ao engano. O tema fácil, o adulto conduzindo o menino em busca da mãe perdida (lembrar, invertendo os sinais, de Central do Brasil). Há o humor meio tosco e direto. E também a ausência absoluta de qualquer intelectualismo nos diálogos, ou na interação entre os personagens. Tudo é absurdamente simples.
E, no entanto, depois de visto o filme, alguma coisa dele fica em você, insistindo. Talvez seja aquela fingida secura de Kitano, dando algumas dicas ao garoto, apontando, amorosamente, o caminho das pedras de alguns ritos de passagem que não se deixam entrever de maneira clara. Talvez seja aquela despedida misteriosa, em que pela primeira vez ele diz seu nome ao garoto - algo como a enunciação do famoso nome-do-pai de que fala a psicanálise lacaniana.
No fundo, "Verão Feliz" fala mesmo é da misteriosa relação existente entre pai e filho e por isso toca no inconsciente de cada um de nós, mesmo que nunca tenhamos ouvido falar em psicanálise na vida, ou que desde criancinhas detestemos Freud e seus asseclas. O filme é sustentado por esses sentidos e por isso continua insistindo em nossa memória. Também por isso é melhor pensar três ou quatro vezes antes de tachar de ingênuo um grande cineasta, como Kitano. Sexo à italiana - "Viol@" (amanhã, 19h30 no Grande Auditório do Masp) causa impressão contrária. Tudo, nesse primeiro longa-metragem de Donatella Maiorca, parece decifrável à primeira vista. Conta, mais uma vez, a história dos relacionamentos à distância, como o indie "Denise Está Chamando". Na versão italiana, o privilégio é todo da Internet. Daí o signo @ que, no título, substitui o "a", de Viola, a heroína. Ela merece.
Viola é uma e-mail woman e parece muito satisfeita com a situação. Até que se "apaixona" por um gato que lhe manda mensagens da outra ponta da linha. Mas talvez seja melhor deixar as aspas em paz porque não há motivo para descrer de uma paixão virtual, tão legítima quanto outra qualquer, só que muito mais chata. A surpresa final, o twist inteligente da diretora, justifica uma história que não prima exatamente pela originalidade.


