Verão com pezinhos de fora
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sábado, 15 de fevereiro de 1997
Celina Alonso Az Sucursal de Maringá 
Arquivo FolhaQuase todos os pés levam uma vida rotineira. Sapatos o dia inteiro e, para respirar, só uma folguinha na hora do sonoAinda não se sabe bem por que a maioria das pessoas sente inibição quando tem que mostrar seus pés. Faça um teste. Peça, de repente, para alguém tirar o sapato. A primeira reação é a de ser apanhado em flagrante. Uns até tentam disfarçar o mal estar, mas o pé ainda parece ser um estranho na terra onde o bumbum, liberado nos tempos do Tchan, se refestela sobre a boquinha da garrafa e posa de paixão nacional.
Com a chegada do verão, implacável com os mais tímidos, muitos dos pés que passaram todo o ano asfixiados dentro do sapato, sufocados pelo tênis, merecidamente são obrigados a mostrar a sua cara.
Quem nem liga para os comentários, assim que começa o verão, vai logo libertando os pés (alguns ainda meio pálidos depois de uma ano de opresssão). A recompensa é a entrada triunfal num confortável chinelão.
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Outros pés mais recatados disfarçam as imperfeições e calosidades em sandálias semi-fechadas. Talvez por esta razão, quando começa a temporada é um corre-corre aos pedicuros e calistas para deixar apresentáveis os velhos companheiros de guerra.
Pés sensuaisPara muita gente os pés não passam de um apoio para o corpo. Já os pedófilos apaixonados dizem que os pés revelam a essência do ser. Tem homens, como o cartunista Henfil, pedófilo assumido, que jurava que pelo pé descobre-se uma mulher ardorosa na cama. Ou uma futura encrenca. Os mais ciumentos, acabam mesmo pegando no pé das suas amadas e perdem a cabeça.
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Muitas mocinhas juram de pés juntos que depois de verem desnudos os pés do noivo perderam todo o encantamento pré-nupcial. Dizem alguns especialistas que muitas das melhores transas começam com carícias preliminares nos pés. E já foi constatado que alguns pés mais ousados chegam a fazer miséria quando escondidos debaixo de uma mesa.
Outros comentam que mesmo depois de uma longa noite de amor fugiram do parceiro. O fato aconteceu depois de uma olhadela, furtiva, por debaixo dos lençóis e da constatação de que o até então acariciado pezinho da noite anterior não passa de algo horrível e desapontador.
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Fetiches à parte, os orientais tratam dos pés com o mesmo esmero dispensado ao resto do corpo. Afinal, segundo a medicina chinesa, é nos pés que estão os pontos-chave da saúde. Por isso, massageá-los sempre que possível ajuda a reequilibar o organismo. E alguns o fazem às vezes em público, e sem o menor constrangimento.
Quase todos os pés, exceto alguns antológicos como os de Pelé, com mil gols nas costas, levam uma vida rotineira. Sapato o dia todo e uma folguinha para respirar, só na hora do banho e no final do dia. Mas, a maioria dos pés mortais, só consegue mesmo ver a luz do dia durante o verão. Os pés de atletas, muitas vezes sofrem calados. Espremidos entre tornozeleira, meião e obrigados a pular milhares de vezes ainda acabam se chocando com outros. Os pés de atleta são os mais agradecidos quando conseguem se libertar de meses dentro de uma chuteira ou de um tênis. Merecem subir no pódium e afogar suas mágoas no verão.
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Os pés infantis chutam o velho e surrado tênis cheirosinho e se atiram na água ou na lama, com a maior naturalidade. Os adolescentes, pés mais rebeldes, quando chega o verão chutam os livros e se esparramam sobre a escrivaninha ou a mesa da sala, amassando os farelos dos sanduíches e ficam 10. Muitos ainda dançam todo o verão para gastar a energia contida.
Pés-de-valsaOs pés de bailarinas, meio massacrados pelas sapatilhas, no verão, desfilam orgulhosamente seus joanetes, frutos de anos de piruetas. Já muitos pés aposentados passam o verão recordando como eram bons nos anos dourados, considerados verdadeiros pés-de-valsa.
E os pés executivos, os dos grandes empresários, então ? Que sufoco. Terno, gravata, sapato e meia, mesmo em dias quentes. No verão, esquecem seus problemas, seu calcanhar de Aquiles e pulam fora do sapato. Para eles, felicidade é um chinelo de praia com direito a ficar de papo para o ar o dia todo, só olhando os pés das secretárias, estudantes, socialites, recepcionistas, donas de casa. Todos flutuando sobre a areia, curtindo a liberdade.
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Como nada é perfeito, também para os pés, mesmo no verão tem muitos deles que dão um duro danado. Entre esses guerreiros que deveriam descansar no verão, estão os pés das modelos e passistas, que além terem de desfilar apertados, ainda não podem cair do salto e enfrentam uma saia justa.
Os pés das modelos, ao lado dos pés de artistas famosos, em algum momento do verão ainda podem ser vistos, confortavelmente instalados, em sandálias e sapatilhas sem salto. Alguns se bronzeiam nos convés de iates, outros assistem ao desfile de Carnaval nos camarotes vips.
Já os pés das passistas, que pedalaram o ano todo fazendo a fantasia, se quiserem arrebentar na avenida, têm que mostrar categoria. E são obrigados a dizer tudo, sambando no pé, é claro.


