Ventríloquo do desamparo
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de julho de 2002
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha 
Esqueça aquela imagem do detetive durão e bom de briga. Deixe de lado a imagem do detetive rápido no gatilho que seduz belas mulheres. Esqueça aquele investigador que arranca informações das paredes e vive tomando uns tragos. Coloque de lado aquela figura que desvenda crimes com precisão científica repleta de cálculos. Também deixe de lado aquele inspetor cheio de erudição que enfrenta assassinos com provérbios.
Essa imagem habitual de detetive vai para o espaço em Brooklyn Sem Pai Nem Mãe, romance policial do escritor Jonathan Lethem que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras. Aclamado como uma das revelações da literatura norte-americana, Lethem, nascido em 1964, coloca ar fresco num gênero desgastado pela falta de criatividade.
O detetive de Brooklyn Sem Pai Nem Mãe, Lionel Essrog, é um homem pouco comum. Na verdade um maluco, segundo o senso comum. Um característico caso clínico retirado dos livros do neurologista Oliver Sacks. O personagem tem um disbúrbio neurológico conhecido como síndrome de Tourette. Os sintomas são tiques compulsivos e incontroláveis como frases desconexas e a mania de tocar coisas e pessoas sem objetivo específico em momentos imprevisíveis.
Órfão, Lionel foi criado num orfanato do Brooklyn sofrendo todo tipo de hostilidade e desamparo, potencializados por sua síndrome. Encontrou segurança num grupo de garotos da entidade que trabalhava esporadicamente numa empresa de mudança. O dono da empresa, Frank Minna, torna-se a única pessoa a entender Lionel e diagnosticar sua doença. Torna-se ídolo do menino.
Com o passar dos anos, Frank Minna abre uma central de táxi e convida a turma de Lionel trabalhar para ele. Trata-se de uma empresa de fachada para ocultar uma agência de detetives. Na realidade a agência de detetives também é uma fachada para negócios escusos da máfia do Brooklyn. Acolhendo os garotos órfãos, cria uma irmandade pautada pela lealdade, embora nebulosa em suas operações.
Tudo caminha bem até o dia em que Fank Minna é assassinado. Duplamente órfão, Lionel resolve, com sua coleção de tiques, descobrir o assassino seja ele quem for. Mesmo tendo sido educado pelos desenhos do Pernalonga e pelas revistas Mad, ele, a seu modo, descobre um monte de sujeiras que pouca gente sabe um esquema criminoso que comanda os subterrâneos de Brooklyn.
O narrador de Brooklyn Sem Pai Nem Mãe é o próprio Lionel. Seu relato, repleto de nonsense, segue a estrutura de seu comportamento pautado pela síndrome de Tourette. Palavras jogadas ao nada, derivações de junção de palavras e frases desconexas são utilizadas pelo autor para construir o universo do personagem. O resultado é exato em inserir o leitor na estrutura mental e emocional do narrador que não está interessado em segmentar o bem e o mal, mas tranqüilizar a solidão de seu mundo.
Seria absurdamente limitante rotular o livro de Jonathan Lethem de mero romance policial. Brooklyn Sem Pai Nem Mãe vai muito além. Possui um alto teor de originalidade capaz de eliminar tal rótulo sem grande esforço. É constituído por uma literatura extremamente contemporânea que consegue manter os alicerces nos quais se sustentam os grande romances de diferentes épocas: a arte de contar uma boa história.
O autor deixa evidente que a trama policial é um instrumento para apresentar a história de Lionel. Um personagem que luta para se encaixar num mundo que não o aceita como habitante nativo, seja como órfão ou como louco tourette. Alguém que procura entender a si mesmo e o mundo a partir de um ótica própria. Uma ótica fadada à solidão.
''Estou bem amarrado. Sou um canhão solto. As duas coisas: sou um canhão solto e estou bem amarrado. Minha vida inteira está compreendida entre essas duas palavras amarrado, solto , mas não há espaço entre elas. Deveriam formar uma única palavra: amarrado-solto. Sou um airbag preso dentro do painel, dobrado camada por camada pronto para explodir, expandir-se, preencher todo o espaço livre. Mas ao contrário de um airbag volto a ser dobrado no momento em que acabo explodindo, novamente tensionado a ponto de explodir... como um pedaço de filme montado em loop. Tudo que faço é comprimir e soltar, repentinamente, sem nunca salvar ou satisfazer ninguém, muito menos a mim mesmo. Mesmo assim o filme avança inultimente, o airbag obsessivo explode repetidas vezes enquanto a vida segue seu curso, à margem desses absurdos gastos de energia.''
(Fragmento de ''Brooklyn Sem Pai Nem Mãe'')
Em seu livro, Lethem dá fôlego novo ao gênero policial com a história de assassinato envolvendo um rapaz que sofre de Síndrome de Tourette


