''Ventríloquo'' de Pauline Melville chega ao Brasil
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quarta-feira, 28 de abril de 1999
ReproduçãoPauline Melville: escritora mostra o incesto sem tabuJotabê Medeiros 
A escritora e atriz Pauline Melville, revelação na literatura inglesa em 1997, chegou ao Brasil esta semana com seu primeiro romance, A História do Ventríloquo (Companhia das Letras), que lança no Salão Internacional do Livro de São Paulo e na Bienal Internacional do Livro do Rio.
Pauline nasceu na Guiana, antiga colônia britânica vizinha dos Estados brasileiros de Roraima e Pará (um pouco maior que o Estado da Paraíba) e um dos países mais pobres do continente. Foi lá, em 1978, que 900 fanáticos da seita religiosa Templo do Povo, liderada pelo norte-americano Jim Jones, se mataram num ritual. É nesse cenário que se passa A História do Ventríloquo (The Ventriloquists Tale), que trata do amor entre uma inglesa e um mestiço indígena, com ingredientes de realismo fantástico.
Algumas histórias são verdadeiras, outras são mito, mas não são autobiográficas, contou Pauline em entrevista à Agência Estado. Creio que minha intenção é um pouco a de confrontar o racionalismo da ciência ocidental com a mitologia afirmou a escritora, que ganhou o prêmio Whitebread First Novel em 1997, como revelação.
Seu romance impressionou até nomes consagrados da literatura, como Salman Rushdie, que escreveu: Pauline Melville escreve com uma luxúria imparcial, que é tanto intelectual quanto sensual. E emendou: Acredito ser ela um dos poucos escritores genuinamente originais a despontar nos últimos anos.
Há um pouco da visão romântica do europeu na história do ventríloquo de Pauline, um tom celebratório da pureza indígena. Passa-se na Guiana de 1987, mas são duas histórias que se alternam - a principal delas no começo do século, quando wapixanas e macuxis haviam descoberto a felicidade. O incesto, que não é tabu entre os índios, é o ponto de conflito do romance.
Os macuxis e os uapixanas são habitantes da Amazônia. O personagem central, o mestiço Chofy McKinnon, está sempre com preguiça e com vontade de brincar, além de ter uma grande voracidade sexual, como um Macunaíma torto. Tem habilidades de ventríloquo e gosta de contar histórias. A diferença entre a Guiana e o Brasil é o tamanho e também a pobreza; a Guiana é muito pobre, diz Pauline. Mas eu acho que toda a América do Sul tem basicamente a mesma história.
Pauline é atriz de televisão há anos na Inglaterra. Em 1991, publicou uma coleção de contos em Shape-Shifter. Voltou à carga só seis anos mais tarde, com A História do Ventríloquo. Mas já tem um novo livro nas lojas inglesas: Migration of Ghosts, no qual a história do título fala do romance entre um inglês e uma índia brasileira. A escritora conta histórias de ditadores e usa o caso do funeral da princesa Diana como ponto de partida para um estudo de contrastes culturais.
Em Mrs. Da Silvas Carnival (O Carnaval da Senhora Silva), uma festa multiétnica faz uma elegia às florestas tropicais com humor e algum sarcasmo.
O Brasil volta e meia passeia pela imaginação da escritora. Eu me sinto um pouco brasileira no meu coração, afirma. Há também muito de mágica e mitologia na sua ficção. Não sei se acredito em mágica ou em vodu, mas eu creio que há, sim, um poder; um poder que conspira para que você acredite.
Pauline enfrenta uma maratona de lançamentos no Brasil. Além de São Paulo e Rio, vai a Juiz de Fora, Curitiba, Cascavel (PR), Brasília e Recife. Em São Paulo, visitou favelas e, por curiosidade, o Estádio do Pacaembu. Parece uma grande arena romana, disse. Mas foi no Rio, no fim de semana, que seu coração balançou. Estou apaixonada por essa cidade, disse, em português.
Pauline acha pouco provável que seu novo livro, Migration of Ghosts (Kirkus Associates), seja lançado no Brasil. Os editores geralmente não se interessam por um livro de histórias curtas, afirmou. Ela disse ainda que a opinião de Salman Rushdie sobre seu romance é menos importante do que o fato de que ele leu o livro. Acho bom que ele tenha lido e apreciado.


