Ventos feministas em Hollywood
Os mais ambiciosos filmes de super-heróis de 2020 são protagonizados total ou parcialmente por mulheres
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Os mais ambiciosos filmes de super-heróis de 2020 são protagonizados total ou parcialmente por mulheres
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ especial para Folha 2 
Está em plena vigência a revolução desencadeada durante 2019, período em que, através de seus filmes mais importantes, Hollywood reagiu impulsionado pelo #MeToo, em boa medida através do empenho em refletir desde pontos de vista dispares e também da avaliação da toxidade do veneno contido nas expectativas sociais associadas à masculinidade, reavaliando posturas, atitudes e comportamentos por tanto tempo legitimados e corporativamente agregados ao fato de ser homem.
Histórias que em outros tempos foram concebidas para celebrar formas de camaradagem essencialmente viris se dedicaram, ao contrário, a uma reflexão sobre o alto preço a pagar. Tanto “The Irishman” de Scorsese quanto “Era Uma Vez...” de Tarantino retrataram mundos dominados por homens e agressivamente masculinos. E fizeram isso adotando um tom elegíaco, reconhecendo que existe um tipo de filme e um tipo de personagem cujo tempo parece ter passado para sempre. “O Irlandês” mostra que a vida da máfia tem muito pouco do glamour que tantos cineastas lhe deram – o próprio Scorsese, entre eles, em boa parte de sua filmografia – e muita farsa autodestrutiva. “Era Uma Vez...” contempla uma dupla de galãs anacrônicos, obsoletos e conscientes de sua própria insignificância e com medo dela. Em suma: ambos os filmes falam do fim da supremacia do macho alfa.
A fragilidade de homens inseguros tentando se esconder atrás de disfarces de durões também foi a tônica essencial em outros títulos importantes para entender o cinema de feito em Hollywood ano passado como “Joker”, retrato de um homem traumatizado e transformado num vingador sangrento. Ou “História de Um Casamento”, que observa um homem enganado por si mesmo, incapaz de reconhecer seu fracasso como marido. Ou “Ad Astra”, o drama espacial que literalmente transforma o patriarcado em ameaça à sobrevivência do planeta. E a maioria desses filmes praticamente ignorou o papel das mulheres em possíveis soluções para essa masculinidade tóxica. Mas muito provavelmente as super-heróinas cuidarão disso, agora em 2020.

É notório que o universo de super-heróis nunca foi exatamente o lugar apropriado para se encontrar representações de gênero progressistas e inclusivas. Na sua origem desenhados por e para homens, durante tempo até demais os justiceiros de HQ foram quase exclusivamente homens, o que explica também o cinema de super-heróis, convertido na ultima década na bilionária fonte que jorrou das bilheterias e até agora considerado assunto sobretudo masculino. É certo que, aos poucos, personagens femininos foram dando um chega pra lá neste panorama. Dinâmica essa indissociável tanto do escândalo protagonizado por Harvey Weinstein a partir de 2017, como da posterior execração de outros magnatas da indústria, alcançados pelo turbilhão do “efeito Weinstein” (como o escândalo na Fox News mostrado no bom filme “Bombshell” , exibido até ontem em Londrina) – as principais causas do surgimento da mídia social “#MeToo”, que incitou com legitimidade uma varredura expressiva entre assediadores e abusadores sexuais.
Então: o que vem por aí promete significar nos próximos meses um ponto de inflexão não apenas para esta categoria especifica de “blockbuster”, mas também para todo o conjunto da indústria. Todos os mais ambiciosos filmes de super-heróis de 2020 são histórias protagonizadas total ou parcialmente por mulheres. São quatro o títulos que prometem; o primeiro, estreando nesta quinta-feira (30) no Brasil (Londrina inclusive), é “Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”, subproduto (nenhum intenção pejorativa, por favor) derivado de “Esquadrão Suicida”, com a bela estrela da vez Margot Robbie vivendo Harley Quinn; “Viuva Negra”, com a letal aranha-solo Natasha Romanoff nas feições de Scarlett Johansson, saindo do semianonimato onde esteve na saga “Avengers”; “Mulher Maravilha 2 ou 1984, de volta Gal Gadot como a divindade amazônica. E por último , mas não menos importante, “The Eternals” situará Angelina Jolie à frente de um grupo de alienígenas (Salma Hayek entre eles) que protegem a humanidade.
Essas personagens terão a garantia do olhar feminino, isto é, não dependerão da feminilidade , nem da atração sexual e nem da coisificação. Até porque são só diretoras por trás das câmeras: pela ordem, Cathy Yan, Chloé Zhao, Patty Jenkins e Cate Shortland.


