VENTOS DO SERTÃO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de julho de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Homem e cavalo. Uma lendária união que percorreu os sertões da América como vento lento. Em qualquer canto, planalto ou planície, cavalos e cavaleiros deixaram marcas na terra e histórias para serem aquecidas pela memória.
Em seu novo livro, Meu Tio Roseno, a Cavalo, o escritor paranaense Wilson Bueno percorre, com os dedos, os sulcos deixados pelas patas dos cavalos na terra do Paraná do passado. Percorre, com palavras, as histórias aquecidas no salgado suor dos animais onde a memória pode grudar como poeira após dias de cavalgada.
Lançado esta semana pela Editora 34, o livro (cuja a capa traz uma foto de Dorico da Silva, da Folha de Londrina/Folha do Paraná,que recebeu, em 97, menção honrosa no 3º Concurso Banco BBA Creditanstalt de Fotografia) narra a travessia do sertão do paranaense realizada pelo personagem Roseno, sanfoneiro e castrador de galo, no lombo de seu cavalo Brioso. Percorrendo a distância entre a região de Guaira (ou autor prefere grafar Guairá), divisa com o Paraguai, às margens do rio Paranapanema, Roseno vive prováveis e improváveis aventuras pelo caminho em pleno início deste século.
Seu principal objetivo é voltar para os braços da amada, a bugre de olhos azuis chamada Doroí, e acima de tudo, conhecer sua filha recém-nascida que dará o nome de Andradazil. Durante a viagem, repetirá o nome Andradazil sem cansaço numa espécie de reza para afugentar o perigo que se aproxima: a Guerra do Paranavaí.
Meu Tio Roseno, a Cavalo é uma novela narrada por alguém que não conheceu pessoalmente o personagem principal, um sobrinho de Roseno que nasceu na década de 40, anos após a morte do tio. Assim, vai colhendo e costurando lembranças, retalhos de relatos de família, memórias perdidas em algum lugar da infância, etc. e, quem sabe, invenções sobre possíveis relatos igualmente inventados.
O grande peso da história narrada por Wilson Bueno não está exclusivamente em seu conteúdo, mas na linguagem desenvolvida para apresentá-lo. A narrativa segue um ritmo de retorno circular sempre em torno da própria narrativa, da própria linguagem. Parece reconstituir o mecanismo da memória de pessoas velhas, onde a repetição revela que as teias das lembranças precisam ir e voltar de um ponto para outro e, em seguida, retornar ao mesmo ponto para depois se dirigir a um terceiro ponto.
Com essa pontuação fica evidente ao narrador repetir o nome do herói, Roseno, de maneira constante e com alterações. Um nome que varia de acordo com a situação, ou contexto da história, ou do foco de visão, ou mesmo o humor do narrador. Roseno se transforma em Rosalvo, Rosilvo, Rovilvo, Rosevalvo, Roseando, Rosando, Rosenaro, Rosevilvo, Rosevago, Rosenando, Rossalvo, Rosireno, Roseante, Rosino, Roselao, Rosíris, Rosindo, Rosevante, Rosevindo, Roseveno, Rosenares, e daí por diante. São dezenas de variações que sempre voltam, uma hora ou outra, para a matriz original o velho Roseno.
Meu Tio Roseno, a Cavalo é uma obra regionalista escrita a partir de um maduro exercício de linguagem. Realiza um retrato da união cultural entre línguas o português, o guarani e o espanhol (estes dois últimos provindos do Paraguai) no sertão geográfico do Paraná.
É inegável que a novela de Wilson Bueno nascido em Jaguapitã, interior do estado encontre eco na literatura de João Guimarães Rosa (1908 - 1967). Não apenas por focalizar histórias de cavaleiros cortando o sertão, mas também por construir uma linguagem específica que leva em conta o universo cultural-geográfico focalizado.
O leitor acompanha o universo do protagonista e do próprio narrador a partir de uma fissão tanto temporal como espacial. Entra, cai, ou mergulha num ritmo barroco completamente diferente da leitura habitual, aquela cotidiana e veloz dos dias de hoje. Entra numa noção temporal onde a lentidão é característica natural e básica. Uma lentidão que não mais se experimenta diretamente com os sentidos contemporâneos, mas com a literatura.
Meu Tio Roseno, a Cavalo - De Wilson Bueno, Editora 34, apresentação de Benedito Nunes, 88 páginas, R$ 16,00.A ilustração da capa é de Dorico da Silva


