VENEZA RI COM WOODY ALLEN
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
''The Curse of the Jade Scorpion'' é outra boa comédia do roteirista-diretor-ator Woody Allen, e quase tão engraçada quanto ''Small Time Crooks'', apresentada aqui ano passado e ainda inédita no Brasil. Em resumo, o filme que lotou a enorme sala Palagalileo sábado logo às 8 da manhã tem diálogos afiados como uma velha e boa navalha, belos e inteligentes personagens femininos, um argumento delicioso, iluminação e desenho de produção na medida para a época que evoca, e uma maneira muito prática e funcional de apreciar e reutilizar respeitosa mas hilariamente o melhor que certos gêneros produziram em suas épocas de ouro. Se alguém podia amarrar com talento o melodrama noir dos filmes de detetive dos anos 40 e a comédia maluca, ou a ''screwball comedy'', este alguém só podia ser Allen.
''A Maldição do Escorpião de Jade'' começa um pouco sem jeito, meio abrupto, e demora alguns minutos para encontrar o tom da comédia. Allen escalou a si mesmo para interpretar CW Briggs, um investigador de companhia de seguros. Ele é bom no que faz, e sempre bota a mão no suspeito certo, e nas mulheres também. No ramo - mulheres, não suspeitos - ele prefere lidar e só se envolver superficialmente com as colegas do escritório, desde um desastrado casamento que todos somente comentam às suas costas. CW deve agora encarar de frente uma nova companheira de trabalho, Betty Ann Fitzgerald (Helen Hunt), obcecada por modernidades. Fitzgerald, como todos a chamam, é a mulher que representa a modernidade nos anos 40: esperta, eficiente, sempre metida em roupas bem talhadas, só acredita em ''métodos científicos'' para solucionar os crimes. Ela também é adepta da igualdade entre os sexos no local de trabalho - pense em Lauren Bacall em meia dúzia de filmes dos 40. CW e Fitzgerald se odiaram desde o primeiro minuto. E por isso os diálogos furiosos entre ambos no decorrer do filme estão entre os melhores que Woody Allen criou nos últimos tempos. Pense, a propósito, em Spencer Tracy & Katharine Hepburn. Ou Bogart & Bacall. Ou Kepburn & Cary Grant.
Naturalmente, Fitzgerald tem um segredo: ela é amante do chefe, o diretor da companhia seguradora Chris Magruder (Dan Aykroyd). E então ocorre um estranhissímo caso de furto de jóias de clientes, que deixa até mesmo CW sem pistas. Pior ainda, quando aparecem pistas elas apontam diretamente para CW, que tem que provar que nada tem com o caso. Um misterioso hipnotizador e sua assistente, uma fatal e rica ninfomaníaca (Charlize Theron), uma dupla de detetives adversários e ainda informantes do baixo mundo contribuem para caracterizar a atmosfera noir. Entre várias, a mais próxima auto-referência de Allen é ''Um Misterioso Assassinato em Manhattan''.
''The Curse of the Jade Scorpion'' deve provar, quando for lançado comercialmente, que também um filme de Woody Allen pode ter boa acolhida mesmo para quem não se importa muito com um filme de Woody Allen. Aqui liberado de suas pretensões confessionais/psicanalíticas, comuns em muitas das ''comédias de Manhattan'', o diretor incorpora ''The Curse...'' à bem sucedida galeria de obras de período, como ''A Era do Rádio'' e ''Tiros na Broadway''.


