Veneza: o melhor ficou para o fim
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sexta-feira, 06 de setembro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2<br> Veneza - O festiva 
Veneza - O festival termina amanhã, com o anúncio dos vencedores e entrega dos prêmios em noite de gala na Sala Grande. Na ponta do lápis, ao final a mostra revela incômodo desequilíbrio entre quantidade e qualidade. Na principal seção competitiva, ''Venezia 59'', entre 21 filmes pouco mais de meia dúzia pode pretender de fato algum tipo de premiação. Os demais foram, na maioria, escolhas equivocadas. E o mesmo se aplica aos 17 longas da outra competitiva, ''Controcorrente''.
Numa antecipação com base nas virtudes dos poucos eleitos, sobram para subir ao pódio ''The Magdalene Sisters'' (Escócia/Inglaterra), ''Far From Heaven'' e ''Road to Perdition''(EUA), ''The Tracker'' (Austrália), ''L'Homme du Train''(França), ''Dolls'' (Japão), ''Dirty Pretty Things'' (Inglaterra) e ''Dom Durakov-La Maison de Fous'' (Rússia/França). A não ser que o francês ''Um Monde Presque Paisible'' e o coreano ''Oasis'', últimos a entrar ontem à noite, tenham feito a total diferença, o que parece pouco provável. Portanto, fora dos citados não há salvação, a não ser que o júri comandado pela etérea Gong Li decida endossar as bobagens desfiladas na seleção. A propósito, já se comenta que o recém-contratado diretor do festival, o suíço Moritz de Hadeln, não emplaca uma segunda edição. Debilidade dos concorrentes e deslizes nos bastidores (cerimoniais atrapalhados por conta de Erika de Hadeln, mulher do diretor, vaidades atropeladas), os motivos. Na lista de potenciais substitutos, o suíço-brasileiro Marco Muller, ex-Festival de Locarno, a crítica do jornal milanês ''La Reppublica'' e atual diretora do Festival de Locarno, Irene Bignardi, e a condessa Marina Cicogna, presidente da Itália Cinema. Decisão para outubro.
Um imigrante clandestino nigeriano em Londres, taxista de dia, porteiro de hotel à noite, insone em tempo integral. Um guia aborígene na Austrália racista dos anos 20, ajudando a polícia a caçar um fugitivo negro acusado de matar uma branca. Os dois filmes, exibidos na mesma jornada, são respectivamente ''Dirty Pretty Things'', de Stephen Frears, e ''The Tracker'', de Rolf De Heer. Ambos ligados por um olhar crítico, focalizando seres à margem e a dinâmica no processo de reverter, pelo menos por algum tempo, a situação adversa. Isto é, agarrar com todas as armas e forças disponíveis a dignidade perdida, e tentar não perdê-la mais.
Depois de concorrer em Veneza-2000 com o drama ''Liam'', o inglês Frears (''Ligações Perigosas'') volta ao Lido com uma história forte, um mix bem equilibrado entre o policial e o filme-denúncia de infames condição social. O clandestino nigeriano Okwe é apenas um entre os diversos personagens de outros países tentando sobreviver na grande cidade do primeiro mundo, mas como todos os ilegais sujeitos ao sub-emprego, vítimas de preconceitos e humilhações e sempre na mira de agentes da imigração. Okwe faz uma macabra descoberta num dos quartos do hotel onde trabalha: o comércio milionário de tráfico de órgãos humanos, retirados de qualquer maneira de imigrantes clandestinos a troco de passaportes e documentos falsos. ''Dirty Pretty Things'' é dessa espécie cada vez mais rara de filmes em que ação e reflexão crítica caminham sempre juntas e efetivas, diretas, num processo que envolve o espectador dando a ele o tempo justo para acompanhar uma e outra. Frears narra tudo com o ritmo quase frenético da própria clandestinidade sempre perigosa dos personagens. Para a marginalidade em Londres nunca é hora do chá.
''The Tracker'' (O Rastreador), do holandês De Heer, australiano por adoção, propõe uma caçada humana na vastidão indomável do outback (o coração selvagem da Austrália). Três policiais brancos (o fanático, o calouro e o veterano), um guia rastreador e um fugitivo, estes dois aborígenes. Todos sem nome, são o que pensam e o que fazem. Podem ser vistos mesmo como arquétipos. O guia não se submete aos outros, e os conduz pouco a pouco às entranhas de um país misterioso que conhece como ninguém. E em algum lugar do outback, com certeza chegará o acerto de contas. Espécie de western existencial (Sergio Leone teria apreciado) com conotações antropológicas, a história acaba sendo um ótimo pretexto dramático para falar sobre poder e racismo. ''É um road movie sem a road'', brincou o diretor De Heer durante a coletiva. Na trilha sonora, dez belas canções entre os blues e country pontuam a narrativa. Impossível ficar alheio a um exercício de estilo e boas idéias quando os títulos ao redor estão rarefeitos.


