Na mesma trilha animadora do Festival de Montreal, que começou há uma semana, Veneza está deixando de ser uma espécie de sucursal da grife Hollywood em que havia se transformado na segunda metade da década de 90. E está sinceramente apostando em se tornar novamente um decisivo, influente fôro da cultura cinematográfica mundial. A partir de hoje, e durante os próximos 11 dias, a 58 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica promete surpreender os mais de 3 mil jornalistas com uma intensa programação que busca, através da jovem diversidade planetária, ser simultaneamente fiel ao espírito autoral que sempre provoca e revoluciona e aos apelos das novidades tecnológicas. Como síntese, Veneza-2001 pretende um duplo reflexo: o da realidade mais atrevida do cinema contemporâneo e aquele da realidade social do mundo de agora.
Na abertura oficial, logo após a cerimônia transmitida ao vivo para toda a Europa, a honra de abrir ''hors concours'' o desfile de atrações fica por conta de ''Dust'', do macedônio Milcho Manchevski, que há seis anos triunfou em Veneza com ''Antes da Chuva'' e depois desapareceu. Por isso sua nova criação é ansiosamente aguardada. O Brasil tem destacada presença este ano no Lido di Venezia: recém-concluído em Paris, o mais recente filme de Walter Salles, ''Abril Despedaçado'' (Behind the Sun), está na principal mostra competitiva e será exibido em pré-estréia mundial no dia 5. Na mostra paralela ''Nuovi Territori'', Julio Bressane, habituée em Veneza, promete como de hábito polemizar com ''Dias de Nietzsche em Turim''.
É impressionante este ano a quantidade de diretores jovens e estreantes na competição, o que evidencia que de fato a organização do festival resolveu assumir riscos, como o de revelar e/ou consolidar talentos emergentes ou pouco conhecidos. A decisiva intenção de multiplicar e dar ampla publicidade a novas identidades por trás das câmeras acabou provocando a grande surpresa no formato do festival: uma segunda mostra competitiva. Assim, além dos 20 longas selecionados para a seção principal, ''Veneza 58'', competindo pelo Leão de Ouro, outros 20 foram selecionados e integram um concurso novo, ''Cinema del Presente'', correndo atrás do Leão do Ano - em Cannes a equivalência é a mostra ''Un Certain Regard'', porém sem prêmios. Há ainda na seção ''Veneza 58'' a participação de mais 17 longas metragens, programados ''fuori concorso''. Trata-se de um mix desafiador e aparentemente irreconciliável, reunindo num mesmo espaço as expressões mais radicais do cinema de autor e filmes-espetáculo, originais e inovadores. Quanto ao ''Cinema del Presente'', a maioria é constituída por longas de estréia e realizados à margem do sistema de produção, com inequívoca intenção de inovar em fundo e forma.
Ao todo vão ser exibidos 160 filmes (76 longas, 72 curtas e médias, 12 documentários), menos que nos últimos anos, distribuídos em ágil rotatividade por oito salas que compõem o complexo do festival na ilha do Lido. Além da imprensa, o público tem acesso a determinado número de sessões e diversos filmes passam em grandes praças ao ar livre e em cinemas de Veneza e Mestre. A seleção deste ano foi resultado da visão e discussão de cerca de 2.400 filmes inscritos (940 longas de ficção, 800 curtas e 640 médias e documentários). A seleção tem ligeira predominância européia, mas abriu espaço, como de hábito mais recente, para produções da Ásia e da América Latina. O diretor da Mostra de Veneza, Alberto Barbera, está particularmente entusiasmado com o filme de Walter Salles, com o iraniano ''Raye Makhfi'', do novato e promissor Babak Payami e com ''Hollywood Hong Kong'', do chinês Fruit Chan. O único veterano, inclusive em premiações internacionais, é o sempre respeitável britânico Ken Loach, que comparece com ''The Navigators''. Werner Herzog, na competição ''Cinema del Presente'', assina ''Invincible''.
E para tumultuar de vez o calendário biológico das platéias, há ainda a paralela ''Nuovi Territori'', com 19 longas e 26 curtas e médias, num amplo painel ''seção-laboratório'', com muita pesquisa e experimentação de linguagem, intercâmbio do cinema com outras artes, multiplicação de técnicas e formatos e a persistência de uma tradição artística a desafiar as novas tecnologias - a Sony, freguesa de caderno, já agendou diversas sessões-vitrine da mais recente maravilha do vídeo digital, com certeza já ultrapassada ao final da mostra. O concurso ''Corto-Cortissimo'', específico da categoria, reúne 15 curtas de 12 países.

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