Escrever sobre Veneza, insistir sobre Veneza...mas ainda?! Já se contou tanto, já se escreveu tão prodigamente sobre ela - e sempre tão bem, de maneira tão enfática, elegante e decisiva, tão merecidamente generosa, lírica, abstrata, pragmática, útil - que é permanente desafio tentar acrescentar algo novo, diferente, original, indispensável. O que conforta (relativamente) quando agora me atrevo prazerosamente a assumir a tarefa e oferecer algumas poucas anotações como observador constante, avalizadas por exata dúzia e meia de visitas nos últimos 20 anos - em tão assumido quanto pretensioso/delicioso status de quase veneziano por auto-adoção -, é não estar sozinho diante deste momento delicado, mas em tão ilustres companhias.
''Tanto se disse sobre Veneza que não me estenderei em minha descrição; apenas contarei como me impressionou'', escreveu o poeta Johann Wolfgang Goethe. E a escritora George Sand observou: ''Amigo, não faz você idéia do que é Veneza''. Herman Hesse contava: ''Todos os poetas e escritores já descreveram, em inumeráveis livros, este extraordinário mundo aquático''. Lorde Byron, ex-habitante da cidade, sentenciava: ''Amei-a desde menino''. E outro prosador famoso, Henry James, arrematava: ''Nada se pode dizer sobre ela, incluindo isto que agora anoto, que já não se tenha dito antes''.
De modo que, quem quer que tente, dificilmente evitará o lugar comum, ou a tentação de fazer ''literaturismo'', assombrado com a repentina (re)descoberta de uma sensibilidade que se extasia diante da magia e do mistério de velhos palácios, luzes outonais, carnavais lendários, mostra de tesouros artísticos a céu aberto. Mas como é sublime e enriquecedor ir e voltar sempre, e incorrer em lugares comuns sobre Veneza, que pode ser tudo, e de fato é tudo e todas as coisas. Menos um lugar comum.
O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu um dia que a cidade é a realização de antigo sonho da humanidade: o labirinto. E se existe uma única cidade para perder-se - e encontrar-se - esta com certeza é Veneza. É o local ideal para perder-se porque, como definiu Jean Paul Sartre: ''...não se mantém distância da cidade, uma distância respeitável; ela se agarra a nós e nos impregna com odores femininos, promiscuidade materna''.
Quem se imagina um navegante, e pensa que somente se percorre Veneza por água em românticas e caras gôndolas, ou nos pontualíssimos vaporetti, os coletivos urbanos que cortam diariamente os 160 canais em todas as direções, incorre em indesculpável equívoco. Sem carros, motos e bicicletas, as ruas estreitas, curtas ou longas e sinuosas são o reino do caminhante. Os guias turísticos oferecem números desencontrados, mas próximos. Fiquemos então com as 118 ilhas de dimensões variadas que constituem a Laguna Veneziana, ilhas na grande maioria ligadas por cerca de 400 pontes, pequenas na quase totalidade. E se bem existe um traçado turístico tradicional que até vale a pena seguir, o ideal é que o visitante arme seu próprio labirinto.
Pois é nas variantes improváveis, nos atalhos esquisitos, nas vielas recônditas e solitárias que se esconde a real palpitação de Veneza. Embora as setas estejam lá, fartas e visíveis e às vezes confusas, conflitantes mesmo - para Rialto, para San Marco, para a Ferrovia, para a Piazzale Roma, para o Lido -, estes são os destinos habituais, abarrotados, congestionados. Nestes trajetos consagrados pelo turismo massificado, de muito movimento e pouco rendimento, as marcas registradas da Veneza mais aparente estão todas lá, na superfície das águas: os pintores e retratistas, os cafés obrigatórios, as lojas de suvenires, os africanos ''bolsistas'' com um olho na turista e outro na polícia, os ruídos próprios e característicos deste reino aquático, o assédio melódico dos gondoleiros, a luz protagonista e de excepcionais propriedades visuais, a gasta materialidade secular das paredes e telhados de uma gloriosa arquitetura sacra e profana esculpida pelo tempo, pela ruína e pela decadência que parecem flutuar entre a água e a eternidade. Tudo é belo, sem dúvida, nestas trilhas já muito percorridas, e cada detalhe naturalmente direciona para o foco das câmeras os milhares de olhos insaciáveis.
É quando se está perdido, porém, que então é possível o encontro com o ainda não trilhado, mas tão remoto e imemorial. Com o desconhecido que também é muito antigo, com os segredos que a cidade guarda e carrega sem querer dividir com quem não mergulha fundo e se dá a ela por inteiro. Foi assim, entregue a muita ''perdição'', que descobri (e recomendo) a Veneza que é de fato. Não se trata, claro, de descartar os símbolos mais evidentes e valiosos deste sempre didático patrimônio cultural da Humanidade, mas de encontrar aquilo que não se busca como dever de casa. De sentir aquela sensação festiva de adivinhar (ou não) o caminho, de tropeçar num pequeno leão alado que não consta de nenhum mapa, de nenhum guia, de topar de repente com um jardim escondido ou suspenso, ou com uma escada encaracolada ou com a sombra de um escudo, ou com o cotidiano de uma casa que desperta para mais um dia, emoldurada por sacadas e varais carregados de flores embandeiradas e roupas multicoloridas, o cenário embalado por sonoridades de ontem e de hoje.
Readequando a máxima: é certo que Veneza ajuda a quem cedo madruga. Beneficiado por um horário que o distancia da horda turística e ainda ameniza os rigores da asfixiante umidade (se a estação escolhida para a viagem for o verão; se primavera, ainda melhor; e daqui a pouco, no gélido quase inverno, acordar muito cedo não é lá muito recomendável...), o andarilho que se aventurar pelas manhãs vai ter à disposição gozos infinitamente mais recompensadores e prolongados. Anônimos venezianos a caminho do trabalho, donas-de-casa no vai-vem das compras, crianças na rotina estudantil, gente da terra ocupada com a lida burocrática do dia a dia, escolas, bancos, comércio - eles são os verdadeiros guias a oferecer ao estrangeiro as coordenadas mais simples daqueles sempre surpreendentes espaços urbanísticos, históricos, artísticos.
E é aí que Veneza, como nenhuma outra cidade que conheço, se entranha na memória de maneira única, implacavelmente sedutora. Não por aquilo que ela tem de novidade ou de raridade, mas por aquilo que oferece de mágico, pelo que oculta e simultaneamente mostra, e que evoca com generosidade, se e quando solicitada. Com carinho e conivência. É nesse momento que, a se acreditar em vidas vividas em outras vidas, se poderia estar seguro de uma outra existência passada em Veneza. Lá atrás, numa das curvas do tempo civilizatório.
E seriam necessárias muitas, centenas de outras vidas para, quem sabe um dia, se obter o desfrute total deste arquipélago do qual é aconselhável se aproximar, no mínimo, com o respeito desarmado que se deve ter quando História, Arte e Eternidade andam de mãos dadas em sinfonia de imortal contemporaneidade.

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