Nenhuma reclamação quanto à variedade e origem dos filmes - já a qualidade pode sempre ser discutida. Pois foi graças a esta múltipla e democrática abertura, recheada de títulos, que trouxe ao tapete vermelho do Lido de Veneza muitas personalidades, nem todas ligadas ao cinema, para celebrar a despedida do estilista Valentino, afivelando malas rumo à aposentadoria. Como designer de moda, bem entendido, porque ele declarou na coletiva que agora passa a criar exclusivamente para a ópera.
Fora de concurso, mas parada obrigatória como fato gerador de notícia, o documentário ''Valentino, o Último Imperador'' é surpreendentemente bom. Dirigido pelo jornalista Matt Tyrnauer, da revista Vanity Fair, que se baseou em seu próprio livro biográfico, o filme é bem esclarecedor não apenas sobre a intimidade do estilista que transformou a inicial de seu nome em símbolo mundial, como também sobre os mecanismos que movem ambições e vaidades neste privilegiado e para muitos supérfluo universo de consumo.
Coloquemos assim: num outro extremo, embora também fora de concurso e da mesma forma tratado como respeitável evento, uma autêntica incursão terceiro-mundista. Ressuscitando seu velho personagem e alter-ego Zé do Caixão, no túmulo do ostracismo há décadas e para muitos objeto de culto, o diretor José Mojica Marins, ou Coffin Joe, como é mais conhecido no fora do Brasil, trouxe ao Festival de Veneza sua mais recente extravagância, ''A Encarnação do Demônio''. Duas vezes exibido na Sala Grande, a mais importante da mostra, o filme teve acolhida modesta, com razoável interação com a platéia.
O melhor foi a coletiva logo após a primeira exibição, quando Mojica deu longo testemunho sobre seu primitivismo como criador de um peculiar cinema de terror - o depoimento, muito divertido a princípio, logo perdeu timing e se arrastou sem que o coordenador pudesse cortar. ''A Encarnação...'' foi produzido pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane, que emplacaram aqui com sua produtora, a Gullane Filmes, dois títulos em competição. A presença de Mojica em Veneza talvez se explique mais por este trânsito de bastidores do que pelas qualidades do filme, de resto limitadas.
A competição prosseguiu com o franco-japonês ''Inju'', de Barbet Schroeder, um estranho e mal resolvido caso de fusão de objetivos, filme que mistura indigestamente atmosfera de thriller, reflexões sobre a criação artística e um estudo sobre a diversidade de gêneros no cinema.
''Inju'', que em caracteres japoneses tanto significa a besta que espreita nas sombras à espera da presa como a besta que dorme em cada um de nós à espera de ser acordada, mistura realidade e literatura de ficção policial numa trama cheia de reviravoltas. Justiça seja feita a Schroeder: toda a sua filmografia é feita de títulos que em nada se parecem uns com os outros. Ou se preferirem: seu estilo é a falta de um estilo. Mas não se deve esquecer dois grandes filmes assinados por ele: o documentário ''Idi Amin Dada'', de 1974, e ''O Resgate da Fortuna'', de 1990.
E o roteirista mexicano Guillermo Arriaga provou que escreve melhor para cinema do que dirige. Sua estréia em longa-metragem está aqui concorrendo ao Leão de Ouro, depois da polêmica que colocou ponto final na colaboração dele com o diretor também mexicano Alejandro Gonzalez IÀárritu. Como de hábito, seu roteiro original é sempre interessante, quando não instigante. Mas como diretor fica à sombra de IÀárritu. Faltam detalhes, carece de mais sensibilidade. Mas vai chegar lá.
A exemplo de ''Amores Perros'', ''21 Gramas'' e ''Babel'', neste ''The Burning Plain'' a questão do tempo e das lembranças, a intromissão do passado e a busca de uma identidade são assombrações na ficção criada por Arriaga. Ele continua um obsessivo com a idéia de decomposição do tempo como tentativa de recuparar coisas e pessoas que não se ajeitam mais assim tão facilmente. Segundo afirmou na coletiva, aqui ele pretendeu analisar como os quatro elementos - terra, água, fogo e ar - influenciam os personagens - o filme tinha na origem justamente este título, ''Os Quatro Elementos''.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.

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