Cento e vinte filmes, entre eles 20 em competição, participam a partir de hoje na ilha do Lido da 57ª edição do Festival de Veneza, aliás Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica. A Clint Eastwood foi reservada a honra de abrir ‘‘hors concours’’ o extenso programa com a premiSre européia de seu filme mais recente, ‘‘Space Cowboys’’. O ator-diretor, de 70 anos, é o grande homenageado da edição 2000: além de um Leão de Ouro especial pela carreira, que será entregue pela atriz Sharon Stone, a curadoria preparou para os 11 dias do festival um ‘‘Tributo a Clint Eastwood’’, com uma dúzia de títulos mais significativos assinados pelo diretor.
Entre os filmes selecionados para a mostra competitiva estão 12 europeus, 5 asiáticos, 2 norte-americanos e um australiano. Há, portanto, uma guinada rumo ao eurocentrismo, depois de algumas edições venezianas recentes em que foi evidente a simpatia pela produção made in USA. E mesmo os dois filmes que representam os Estados Unidos são produtos independentes, sem ligação com nenhuma das grandes companhias. De resto, a globalização impõe as regras, com poucas realizações ostentando capital e equipe de um único país.
Mas o braço longo da América vai marcar presença forte com uma entourage de celebridades que compõem os elencos dos filmes em concurso e das diversas mostras paralelas. Garantindo com sobras o indispensável lado mundano do festival, estão confirmadas as presenças de Harrison Ford, Michelle Pfeiffer, Julia Ormond, Richard Gere, Helen Hunt, Laura Dern, Sharon Stone, Liv Tyler, Cristina Ricci, Cate Blanchett, Johnny Depp, John Turturro, Hugh Grant, Tracey Ullman, Harvey Keitel, Matthew McConaughey, Jon Bom Jovi, Jennifer Lopez, Jennifer Jason Leigh (no juri), Vincent D’Onofrio, Jennifer Connelly, Val Kilmer, Ed Harris, Guy Pearce e Farraw Fawcett. O time europeu, embora com menos celebridades, tem respeitável peso de qualidade: Ian Hart, Nathalie Baye, Isabelle Huppert, Oliver Martinez, Javier Bardem, Daniel Auteiul, Stefano Dionisi, Chiara Mastroianni.
O Brasil, de fora do menu principal, tem algumas participações periféricas. Começando por hoje à tarde, na mostra paralela ‘‘Nuovi Territori’’, quando será exibido o longa-metragem ‘‘O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas’’, da dupla Paulo Caldas/Marcelo Luna. Um documentário áspero como a realidade marginalizada que mostra, uma experiência radicalizante que merecidamente encontra uma vitrine internacional à altura do tratamento de urgência que confere à violencia urbana.
O grande Lima Duarte desde já se candidata a Colpa Volpi de melhor ator. Ele é o Padre Antonio Vieira, segundo o diretor português Manoel de Oliveira. O filme é ‘‘Palavra e Utopia’’, e o Brasil aparece na co-produção ao lado de Portugal, França e Espanha. Oliveira, que ano passado recebeu um prêmio especial do júri de Cannes, está com 92 e é o mais velho diretor de cinema em atividade.
Outras entradas brasileiras na mostra são do diretor Hector Babenco, desta vez e curiosamente apenas como ator em ‘‘Before Night Falls’’, longa americano em competição dirigido pelo artista plástico Julian Schnabel, que em 96 estreou como diretor aqui em Veneza com ‘‘Basquiat’’; e da pianista de jazz Eliane Elias, radicada em Nova York e um dos dez personagens-músicos retratados no documentário ‘‘Calle 54’’, do espanhol Fernando Trueba. O filme será exibido ‘‘hors concours’’.
Fora de concurso há mais iguarias finas. Como o último Woody Allen, ‘‘Small Time Crooks’’. Ou a estréia de Takeshi Kitano nos Estados Unidos, o policial ‘‘Brother’’. Ou o recém-concluído ‘‘Merci pour le Chocolat’’, de Claude Chabrol. Segundo ele ‘‘um filme sobre a perversidade’’. Ou ainda as quatro horas do documentário ‘‘Il Dolce Cinema’’, de Martin Scorsese, reconhecendo, glorificando e preservando as fontes cinematográficas italianas, em projeto co-financiado pelo estilista Giorgio Armani.
Como vem acontecendo nos últimos anos em festivais de ponta, os asiáticos dificilmente saem de mãos abanando. Coréia do Sul, Irã, Hong Kong, Índia, China e Japão com certeza devem mais uma vez dar trabalho ao júri oficial, desta vez escalado com Samira Makhmalbaf (diretora), Tahar Bem-Jelloun (escitor), Claude Chabrol (diretor), Giuseppe Bertolucci (diretor) e Andreas Kilb (crítico). Quem preside é Milos Forman, uma garantia parcial de que nenhuma bobagem sairá de Veneza com um Leão de Ouro na bagagem.
Entre os filmes europeus, destaque para a numerosa delegação doméstica. São nada menos que oito longas italianos, quatro em competição. Protecionismo? O diretor do festival, Alberto Barbera, nega: ‘‘Não é uma seleção para favorecer, mas fruto da qualidade dos filmes. O cinema italiano está produzindo mais e melhores filmes, ainda que não estejam presentes alguns autores que não tiveram tempo de concluir seus trabalhos, como Nanni Moretti, Ermano Olmi, Ettore Scola, Francesca Archibugi, Giuseppe Tornatore.
As maiores expectativas ficam por conta da comédia ‘‘ginecológica’’ de Robert Altman, ‘‘Dr. T and the Women’’; do novo Stephen Frears, ‘‘Liam’’; das idéias originais de Raoul Ruiz em ‘‘Fils de Deux Màres ou Comédie de l’Innocence’’ e da experiência de Barbet Schroeder em vídeo de alta definição na co-produção franco-colombiana ‘‘La Vierge des Tueurs’’. Nada impede, no entanto, que apareçam inesperadas cotas de ousadia estética necessária a qualquer festival.
Um programa paralelo que desde já se apresenta irresistível é a rubrica ‘‘Beckett on Film’’. São dois longas e nove curtas metragens que registraram em celuloide peças de Samuel Beckett, Nobel de literatura e um dos maiores dramaturgos do século. O projeto é do diretor artístico irlandês Michael Colgan, que se associou a grandes nomes do cinema como Atom Egoyan, Anthony Minghella, David Mamet, Neil Jordan, John Hurt, Walter Asmus, Karel Reiz, entre outros. O resultado em princípio é fascinante: traduzir Beckett para a tela sem mudar uma única palavra do texto.

mockup