Veneza assume eurocentrismo
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terça-feira, 30 de julho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Depois de comandar nos últimos 22 anos o Festival de Berlim, considerado o terceiro na hierarquia das grandes competições mundiais de cinema, Moritz de Hadeln anunciou ontem em Roma a programação da 59 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica e calou seus críticos mais contundentes e inconformados com as diretrizes culturais propostas pelo governo Silvio Berlusconi. ''A Mostra será a da diversidade e, espero, da descoberta. Procuramos oferecer um amplo painel de gêneros e temas, da obra de pesquisa às grandes produções comerciais, combinando o trabalho de jovens com o de autores já confirmados. Mas buscamos sempre privilegiar aquilo que julgamos ser a qualidade, a originalidade e o talento''.
O que de imediato chama a atenção é que Veneza assume uma tendência eurocêntrica: dos 38 filmes de longa-metragem nas duas mostras competitivas, 23 são produções integrais ou majoritariamente européias, e dos 12 ''eventos especiais'', ou fora de concurso, 9 são da Europa. Outra surpresa é a considerável presença italiana, com 14 longas (3 em competição), 12 médias-metragens e 8 curtas. Ao todo, em 11 dias de festival, serão exibidos 150 filmes: 84 longas, 46 curtas e médias e 20 documentários. Hadeln manteve as duas mostras competitivas, inovação do ex-diretor Alberto Barbera, mas rebatizou a segunda competição como ''Controcorrente'', com o Premio San Marco.
Entre os diretores mais conhecidos, estão de volta à corrida ao Leão de Ouro os franceses Michel Deville, o inglês Stephen Frears, a polonesa Agnieska Holland, o russo Andrei Kontchalovski, o italiano Michelle Plácido. Dois são estreantes no longa: Danielle Vicari (Itália) e Winfried Bonengel (Alemanha).
Os Estados Unidos têm forte presença na edição veneziana de 2002, com 10 longas metragens divididos entre as principais seções as duas competições e os eventos especiais. O diretor Moritz de Hadeln foi esperto, fragmentando e distribuindo as entradas americanas. Mas se por um lado diminuiu suspeitas de excessivo favorecimento aos EUA, o que ocorria com frequência em Berlim e que em Veneza agradaria particularmente a Berlusconi, por outro garantiu com sobras o vaivém de celebridades que já garantiram presença no circuito veneziano. Como Julia Roberts, Nicole Kidman, Harrison Ford, Meryl Streep, Juliane Moore, John Malkovich, Ed Harris, Antonio Banderas, William Hurt, Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Jennifer Jason Leigh, Salma Hayek, Edward Norton, Geoffrey Rush, Ashley Judd, Liam Neeson, Clint Eastwood, Jeff Daniels, Anjelica Huston, Dennis Quaid, Mira Sorvino, além dos vips europeus: Catherine Deneuve, Chiara Casellim Laura Morante, Xavier Bardem e Sophia Loren.
Para o Brasil restou uma única oportunidade, e em vitrine secundária: o filho de Glauber, Eric Rocha, vai mostrar fora de concurso o longa ''Rocha que Voa'', na seção ''Nuovi Territori''. Uma grande homenagem está prevista para celebrar os 90 anos de Michelangelo Antonioni: na maior e mais completa retrospectiva do mestre, serão exibidos 16 curtas e 17 longas-metragens, realizados entre 1943 e 1995, além de quatro filmes sobre o cineasta. E a própria mostra de Veneza, o mais antigo entre todos os festivais, será motivo de homenagem. Sob o título ''70 Anos da Mostra: Foice, Martello e Feixe (1932-1942)'', serão projetados nove filmes russos, checos e húngaros.


