Veneza abre com o sangue da Macedônia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de agosto de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>De Veneza 
Depois de longo retiro de sete anos, quando ganhou o Leão de Ouro com ''Antes da Chuva'', belo e urgente filme de estréia (31 prêmios internacionais, inclusive a indicação ao Oscar de melhor estrangeiro), o macedônio Milcho Manchevski está de volta a Veneza, agora na cômoda condição de convidado especial. Seu segundo filme, ''Dust'', foi visto ontem na abertura oficial da 58 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica. Não é um grande filme, longe disso. Mas também não se descarta prontamente, não sem antes uma incômoda descida ao inferno congestionado por ensanguentadas identidades balcânicas em seculares conflitos. O problema maior de quem fez são os excessos, em quase todos os sentidos. E de quem viu, em première mundial, foram com certeza uma certa má vontade e a impaciência, geradas e temperadas pela natural fadiga impostas pelos mais diversos fusos horários de quem chega à maratona.
Atrevido e sem meias medidas, Manchevski fez um western. Ou melhor, um eastern balcânico. Ou os dois. Na virada do século, nos Estados Unidos, dois irmãos se apaixonam pela mesma mulher. Ela, Lilith, escolhe Elijah, o mais jovem e tranquilo. O irrequieto e rejeitado Luke vai para a Europa e chega à Macedônia, onde seus demônios interiores o transformam em mercenário em lutas diversas. Mas um incidente em particular oferece a ele a chance de assumir a revolução e tomar partido. Cem anos mais tarde, nos dias atuais, um ladrão ordinário e desesperado, Edge, tenta roubar uma velha num apartamento. Ela, Angela, não lhe dá o ouro escondido até que ele ouça toda a história que a velha tem para contar. A história de dois irmãos que amaram a mesma mulher há muito tempo...
''Dust'' reconstrói muito da iconografia da revolução da Macedônia. Segundo disse Manchevski durante a coletiva, elementos visuais similares podem ser encontrados no velho oeste americano ou na revolução mexicana. Rodado em parte das montanhas da Macedônia, em parte em Nova York, o filme tem na excessiva sanguinolência o principal ponto de contestação. Explícita homenagem às coreografias de câmera de Sam Peckinpah e Sergio Leone, o filme utiliza todo o tempo uma espécie de estética da morte para falar de possibilidade de vida numa das regiões mais conflagradas do mundo. Não é comum ver um bangue-bangue cortejar todas as convenções do gênero, e ao mesmo tempo deslocar esses ícones para outro contexto físico, político e social. Ao mesmo tempo em que há caçadores de recompensa como Clint Eastwood, há insistentes tiroteios entre soldados turcos e otomanos, revolucionários macedônios, gangs paramilitares gregas e albanesas. Fraturada, a narrativa de Manchevski não é nada confortável, e quando a isto se acresce uma violência gráfica, insistente, a tendência é, digamos, de um super-aquecimento quase insuportável do lado de cá da tela. Mas não é nada difícil o filme crescer numa oportuna revisão.
Foi dada a largada para as corridas aos leões. Sim, agora com duas mostras competitivas, Leone d'Oro e Leone dell'Anno. É um corajoso balão de ensaio da organização, para tentar garantir na mídia o mesmo espaço para filmes que muitas vezes passavam discretamente em mostras paralelas. Ao todo 41 longas competindo. Entorpecidos por um sufocante calor úmido - o pior em muito tempo, segundo os venezianos -, os jornalistas mais que nunca têm que optar, gastar mais tempo em manobras seletivas de resto torturantes e nem sempre eficientes. Feito o jogo, é partir para a prospecção. A mostra principal, ''Venezia 58'', abriu com o coreano ''Endereço Desconhecido'', de Kim Ki-Duk. Como sempre, o Oriente não decepciona mas neste caso também não entusiasma. A visão trágica da falta de perspectiva na Coréia, através de um microscomo social onde uma dezena de personagens se auto-destrói. A presença militar americana se faz sentir em feridas abertas ontem e hoje.


