Vendedor de sonhos quer escrever memórias
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Pé-frio, não. Apesar do apelido, José Ferreira Navarro Gomes ganhou a sorte grande no bilhete da loteria. Com o dinheiro comprou casa, datas e carro. Antes que seja confundido como o novo milionário da cidade é melhor ir logo dizendo que ele é o vendedor de sonhos mais famoso do Calçadão. Rico mesmo, Zé é de histórias colecionadas nesses 44 anos em que tem uma banca de apostas em frente ao Banco do Brasil. Casos que pretende contar em um livro.
O bilheteiro Zé faz parte da paisagem de um dos cartões-postais da cidade, montando a sua banca no local, antes da construção do prédio do BB, que empresta a marquise para a mesa e o banquinho - o escritório de onde vende sonhos de fortuna até pelo celular aos apostadores que ligam para pedir um palpite.
Aos 61 anos, ele quer se tornar escritor. Para isso depende de um editor que tope a empreitada de ajudá-lo a colocar no papel as quatro décadas da boca maldita londrinense.
O nome do livro, ele ainda não tem, mas sabe como vai começar: ''Eu vim do sítio e peguei um único bilhete para tentar vender. Sentei na cadeira aqui em frente ao Banco do Brasil. O cliente chegou e falava mais do que eu, que não conseguia dizer nada. Vendi aquele número e comecei levar outros em lojas, como a Buri, que não existe mais'', lembra.
O livro do Zé terá um pouco de tudo, inclusive personagens bizarros que nesses anos passaram pela Calçadão, como um mendigo que pedia esmolas de joelhos. ''Esse senhor chocava muito as pessoas. Ele ficava de joelhos e com as mãos estendidas, pedindo dinheiro.''
Entre o bizarro e o pitoresco, as memórias do Zé não deixam escapar nada, lembrando dia, mês e ano em que muitas coisas aconteceram, registradas manualmente em cadernos.
O bilheteiro conta que, na Rua Sergipe, existia uma loja chamada ''Bota Fogo'' e que o Circuito, personagem londrinense que andava pelas ruas dobrando pedaços de cartolina, levou o nome do estabelecimento ao pé da letra, tentando incendiar o prédio.
Dias de fúria também foram assistidos de camarote por Zé, que acompanhou um tiroteio no BB, durante uma tentativa de assalto. Ele também conheceu personalidades como o político Ulysses Guimarães. Guimarães não levou um bilhete, mas o cantor Sérgio Reis acabou ficando com um pedaço.
Dos personagens com quem convive no Calçadão, ele diz que gosta da classe média, gente com quem troca idéias, conta piadas e vende os seus bilhetes.
Solteiro, o bilheteiro revela que nunca quis se casar porque trabalha por conta e não dá para prever quanto vai ganhar. Na sua opinião, a pessoa para assumir um relacionamento precisa ter um rendimento fixo.
Curiosamente, a melhor lembrança que Zé tem do Calçadão é justamente a imagem clássica de um casamento em que os noivos desfilaram num fusca com o pára-choque enfeitado de latas.
Embora as vendas tenham diminuído, Zé garante que dá sorte e que já vendeu vários bilhetes premiados. O primeiro deles no dia 16 de fevereiro de 1974. O prêmio foi de mil cruzeiros.
Para os que querem apostar na loteria, contando com o pé-quente do Zé, quem sabe essa sequência de números pode ser um bom palpite do bilheteiro.


