Vendedor canta, dança, toma chá e faz discursos
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segunda-feira, 11 de junho de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Os outros não são, necessariamente, o inferno e, ainda assim, continuam sendo os outros - uma realidade diferente da nossa e que a companhia de dança norte-americana Big Dance vai de encontro no espetáculo ''The Other Here''.
A peça que estreou ontem será reapresentada apenas hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde. Além da coreografia, ''The Other Here'' recorre também ao teatro, música e design visual para tentar aproximar os diferentes.
Pela primeira vez no Brasil, a companhia criada por Paul Lazar que na apresentação em Brasília foi reconhecido na rua pela atuação no filme ''O Silêncio dos Inocentes'', dirigido por Jonathan Demme, traz ainda Molly Hickok, que atuou ao lado de Tom Hanks em ''Philadelfia''. Molly também é uma das fundadoras do grupo, em 1991, juntamente com a esposa de Lazar, Annie-B Parson.
Para criar a peça, Lazar se aproximou da comunidade japonesa em Nova York, conhecendo a música e a dança de Okinawa.
Ele também conheceu mais profundamente a obra do escritor japonês Masuji Ibuse, que aparece na coreografia em duas de suas histórias: ''Life at Mr. Tange's'', que conta a vida de um empregado que perdeu a fortuna, e ''The Carp'', que aparece na peça no vídeo de Peter Flaherty.
Nas imagens uma carpa nada para fora e para dentro das ações no palco. Molly ressalta que a montagem é um olhar para outra cultura e, quando se isso acontece, pode haver algum mal-entendido, mas que dessa situação negativa é possível tirar algo positivo.
''O espetáculo reflete isso. A música de Okinawa parece derivada do pop e essa mistura e fusão bizarra, refletem uma similaridade'', comenta Lazar.
A tradição japonesa na coreografia ajuda a contar uma história inspirada na ''Million Dollar Round Table'', uma associação que reúne profissionais do mercado financeiro e de seguradoras - numa alusão ao capitalismo americano.
No palco, entre outros personagens, um vendedor canta, dança, toma chá, faz discursos e almoça, lembrando o caos da vida contemporânea, onde as verdades e mentiras parecem a mesma coisa, enquanto a cultura original vai se perdendo.
Para o elenco, o espetáculo tem se revelado uma descoberta. Lazar conta que ao se apresentar nos Estados Unidos observou que o público ria bastante de uma frase de Tchaikovsky, que no Brasil não tem nenhuma graça.
''O público brasileiro riu bastante quando outra frase de Tchaikovsky, que diz que '...a vida do homem é como uma flor no campo. Uma ovelha vem e se acaba'. Fatos como esses são como janelas que se abrem para começarmos a ver as diferenças e questões culturais que são muito próprias'', comenta Lazar.
''The Other Here'' não propõe uma crítica, mas apenas mostrar o que acontece quando olhamos para o outro - que não precisa ser, necessariamente, um inferno para nós.


