Imagem ilustrativa da imagem Vencedor do prêmio Jabuti 2016 participa de evento em Londrina
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A violência pode dar origem a indignações, revoltas, gritos, berros e batalhas. Mas igualmente pode gerar silêncios, resignações e isolamentos. As vítimas, sejam elas visíveis ou invisíveis, escolhem o caminho que suportam.

"A Resistência", obra do escritor paulista Julián Fuks, mergulha nas consequências invisíveis da violência que podem se propagar ao longo de anos e décadas. O livro ganhou o prêmio Jabuti 2016 em duas categorias, o de melhor romance e de livro do ano.

Julián Fuks é um dos convidados do Londrix – Festival Literário de Londrina de 2017. Ele participa na quinta (16), no Museu Histórico de Londrina, às 20 horas, da mesa "Fantasmas do Presente e Silêncios do Passado" ao lado do professor Silvio Demétrio.

Filhos de pais argentinos exilados no Brasil, Julián Foks nasceu na cidade de São Paulo em 1981. Autor de "Histórias de Literatura e Cegueira" (Record, 2007) e "Procura do Romance" (Record, 2012), é considerado um dos grandes nomes da nova geração de escritores brasileiros.

"A Resistência" é um romance diferenciado tanto na abordagem temática quanto na linguagem. Pode ser considerado uma narrativa sobre relações familiares, sobre a adoção de filhos, sobre a violência dos regimes militares, sobre fantasmas do passado, sobre silêncios do presente, sobre identidade pessoal, sobre a incomunicabilidade, sobre a ambiguidade humana e muito mais.

Traz o relato de Sebastián, um sujeito que apresenta a história de seu irmão adotivo na tentativa de entender sua própria história. A questão reside no fato do irmão ser um dos inumeráveis recém-nascidos roubados pelos militares de suas mães, presas políticas desaparecidas durante a ditadura militar argentina dos anos de 1970.

A obra coloca em questão a invisibilidade de algumas das vítimas da violência das ditaduras militares da América Latina. Um tipo de invisibilidade que nem todo acolhimento do mundo é capaz de dimensionar e conferir alguma visibilidade. A seguir Julián Fuks fala sobre "A Resistência".


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Nas primeiras páginas de "A Resistência" o narrador faz uma afirmação instigante: "Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência". O que existe dentro dessa frase?

Em seu contexto, a frase faz referência à decisão de ter um filho em circunstâncias perigosas, por um casal perseguido pela ditadura militar. Ali, ter um filho era um ato de risco, sim, mas uma opção pela vida contra a morte real ou simbólica, contra a tentativa de aniquilação de um grupo ideológico, contra a repressão. Mas há um "sempre" nessa frase que você destaca, e isso de fato a transforma. Penso que, se resistir é um modo de incidir no mundo, talvez não haja incidência maior do que a criação de um filho, de um novo ser que terá seus modos próprios, imprevisíveis, um novo ser que em sua singularidade também haverá de contrariar a massificação de toda lógica repressiva.

A narrativa do romance é toda permeada pela ambiguidade. As coisas parecem ser e ao mesmo tempo parecem não ser. Qual sua intenção nessa ambiguidade?

A ambiguidade é o terreno que a literatura habita com mais propriedade, acredito. Há tempos a literatura tem sido muito mais o espaço da dúvida e da indeterminação do que o lugar da afirmação de convicções rígidas. Pela ambiguidade, pela incerteza, talvez se chegue mais perto da delicadeza das situações reais, da multiplicidade que as caracteriza. No meu caso, falar de relações familiares, de relações permeadas pelo silêncio e pela distância, me exigia uma linguagem ambígua, uma linguagem que levasse em conta a inexistência de uma verdade única, uma diversidade de perspectivas.

"A Resistência" pode ser considerado uma obra de autoficção?

Sim, eu considero assim. Talvez não se encaixe precisamente em algumas definições mais estritas de autoficção, mas é uma narrativa em que a ficção se deixa afetar por toda parte pelas reverberações de um real, a ponto de não poder existir sem esse referente. É então mais um entre os muitos discursos híbridos do presente, a ficção se deixando atravessar pela memória, pela biografia, pelo ensaio, pela historiografia.

O romance aborda a violência das ditaduras militares da América Latina através do silêncio de suas vítimas. Mais especificamente do silêncio uma vítima completamente inocente: uma criança. O que essa abordagem significa?

É um modo curioso de colocar as coisas. Sempre tive dificuldade em ver a mim e aos meus irmãos como vítimas da ditadura militar argentina. Minha percepção é de que em nosso caso as vítimas seriam os meus pais, que viveram aquilo diretamente, que tiveram sua vida suspensa, que perderam colegas e amigos, que perderam sua casa e seu país. Mas acho que o livro acaba refletindo como esses arbítrios reverberam muito além daquilo que tocam diretamente, produzindo os mais diversos efeitos em tantas outras vidas, em círculos concêntricos que se expandem infinitamente. As ditaduras deixaram traumas que não terminaremos de assimilar tão cedo.

Sua fala amanhã no Londrix possui como tema "Fantasmas do Presente e Silêncios do Passado". Você acha que essa poderia ser uma definição de "A Resistência"?

É um título muito interessante. A princípio eu apontaria uma inversão aí, tenderia a pensar em fantasmas do passado e silêncios do presente. Mas é curiosa a proposta de leitura que se apresenta aí, e me parece justa: são os silêncios do passado, aquilo que calamos contra a vontade, aquilo que fomos incapazes de dizer, que acabam por produzir os fantasmas do presente. E dizer enfim o que não se soube dizer antes, escrever sobre o que se calou por tanto tempo, talvez seja o único modo de possível de exumar e emancipar esses fantasmas.


Leia um trecho da obra


Não quero imaginar um galpão amplo, sombrio, o silêncio asseverado pela mudez de um menino franzino. Não quero imaginar a mão robusta que o agarra pelas panturrilhas, os tapas ríspidos que o atingem até que ressoe seu choro aflito. Não quero imaginar a estridência desse choro, o desespero do menino em seu primeiro sopro, o anseio pelo colo de quem o receba: um colo que não lhe será servido. Não quero imaginar os braços estendidos de uma mãe em agonia, mais um pranto abafado pelo estrondo das botas contra o piso, botas que batem e o levam consigo: some a criança, resta a amplidão do galpão, resta o vazio. Não quero imaginar um filho como uma mulher em ruína. Prefiro deixar que essas imagens se dissipem no inaudível dos pesadelos, pesadelos que me habitam ou que habitavam uma cama vizinha à minha. Se posso ser sincero comigo, prefiro não me deixar absorver pelas imagens desse nascimento. Contar de uma criança que nasce é contar de uma súbita existência, de um ser que se cria, e a ninguém importa esse momento mais do que a esse ser, a ninguém concerne esse momento mais do que à criança que surge à vida. Para conceder a esse nascimento o devido tom de alegria, o tom que eu gostaria que ele merecesse, que meu irmão merecesse como toda a vida merece, eu teria que apelar aos sorrisos dos que logo que se viram diante dele, dos que enfim se prestaram a chamá-lo de filho. Uma criança não chora para abrir nos outros a possibilidade de um sorriso; chora para que a tomem nos braços, e a protejam, e calem com carícias o desabrigo implacável que desde tão cedo a atormenta. Se não quero imaginar um menino como a ruína de uma mulher, também não posso imaginá-lo como a salvação de outra família, da família que seria a minha, salvação descabida que jamais deveriam lhe pedir. (Fragmento de "A Resistência", de Julián Fuks)



Serviço:

"A Resistência"
Autor - Julián Fuks
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 144
Quanto – R$ 34,90 e R$ 23,90 (ebook)

Programação Londrix 2017
Mesa "Fantasmas do Presente e Silêncios do Passado", com Julián Fuks e Silvio Demétrio.
Quando: quinta-feira (16)
Horário: 20 horas
Local: Museu Histórico de Londrina

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