Vem mais Millôr por aí
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domingo, 03 de setembro de 2006
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
O evento estava previsto para 16 de agosto, quando o homenageado completou 83 anos, mas acabou remarcado para o próximo dia 18. Não importa - Millôr Fernandes, o centro de toda atenção, não deverá comparecer, honrando sua fama de não frequentar festas para as quais é convidado. Mesmo assim, na noite do dia 18, artistas como Fernanda Montenegro, Pedro Cardoso e João Bosco vão participar da festa ''Dias Millores Virão'', na livraria Argumento, no Rio, em homenagem ao jornalista, cartunista, escritor e dramaturgo, cuja obra começa a ser reeditada agora pela editora carioca Desiderata. E, mesmo com ausência anunciada, o festejado dá seus pitacos e sugere que o encontro se chame ''Millôr: ...Evento Levou''.
É essa particularidade que será lembrada, especialmente quando os artistas lerem trechos selecionados de uma obra cujo conjunto soma mais de 100 peças, uma infinidade de desenhos, traduções e meia centena de livros. ''Millôr vive seu cotidiano cercado do humor inteligente'', observa a jornalista Martha Batalha, que criou a Desiderata em 2003 disposta a recuperar preciosidades da cultura nacional. E, depois de lançar o primeiro volume de uma antologia do jornal O Pasquim, ela promete até o final do ano enviar cinco livros de Millôr às livrarias, todos cuidadosamente preparados, inclusive com material inédito.
O primeiro já está à venda.
Millôr acompanha com atenção a reedição de sua obra, fornecendo material de seu vasto acervo, como comenta na seguinte entrevista.
Sentiu-se tentado a mudar alguma coisa escrita no passado, ainda que fossem apenas vírgulas?
Se deixarem eu mudo tudo. Mas não mudei nada, que digo?, apenas coloquei três sinais de crases devidamente errados para mostrar que crase é uma besteira.
Você se projetou nos tempos de censura. Como compara o humor da ditadura com o de hoje?
Censura só existe para quem a reconhece e teme. Sempre faço humor sem me preocupar com o em volta. Falar nisso, não acredito nesse negócio de meio ambiente. Como é que ''eles'' encaram a outra metade?
Quando publicou seu primeiro romance, ''Cabeça de Papel'', Paulo Francis ficou deprimido ao constatar a falta de repercussão cultural do que se faz no Brasil. Você tem também tem essa sensação?
Tive enorme e longa convivência e amizade com Paulo Francis. Mas a dele não é a minha. Minha prática de ''literatura'' ou ''arte'' é apenas uma forma de ganhar a vida. Na verdade, já declarei isso muitas vezes, minha vocação é o esporte. Sou um atleta fracassado. E Deus viu que isso era bom.
Você se considera um livre-pensador? É possível sê-lo, num país como o nosso? O que é, para você, livre-pensar?
Livre-pensar é só pensar. Acho ridículo os sujeitos que se dizem ''pensador católico'' ou ''pensador marxista''. Quer dizer, estão pensando o já pensado.
Falando de política, como vê o comportamento das oposições, neste momento?
Que oposição? Que política? Sintetizando: todo poder é fascista.Todo político é desprezível. E basta.
Continua acreditando que a ignorância subiu à cabeça de Lula?
Não tenho a menor dúvida de que se trata de um fronteiriço.
Quais autores tem lido?
Leio seguidamente tudo. Em geral um pouco fora do circuito (este inclui, naturalmente, Paulo Coelho e ''Código Da Vinci''). Li agora mesmo o último álbum de Steinberg, publicado depois de sua morte. E um belo livro, intraduzível, ''Wide as the Waters'' (Amplo como as Águas). A luta política, durante o período Henrique VIII-Lutero-papa na tradução da Bíblia.
O que é mais difícil, começar ou terminar um texto?
Quando você começa, já terminou.


