Vem da Alemanha a surpresa de Cannes
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segunda-feira, 16 de maio de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>de Cannes, especial para a Folha 2 
O filme marcou com brilho o retorno do cinema alemão à competição, depois de oito anos de jejum. Em suas quase três horas que passam sem qualquer peso para o espectador, o terceiro longa da (bela) berlinense Maren Ade se passa na Romênia, embora não se converse uma palavra em romeno. Coisas do colonialismo econômico antropofágico-europeu. No centro do argumento, o tema que absorve por completo: a trajetória de uma mulher de 30 anos, fria assessora de uma companhia alemã em vias de engolir uma petrolífera romena. Mas esta mulher de vida cinzenta, impessoal e mecânica (Sandra Huller) está prestes a encontrar uma via de libertação pessoal. Como se dá esse processo? Pela via familiar, isto é, entra em cena o absorvente pai da moça, Winfried, personagem livre e memorável interpretado pelo ator austríaco Peter Simonischek (candidato firme a melhor ator). É ele quem vai injetar neste cenário o ar puro e delirante que atravessa o filme, num misto de comédia libertária e melancolia.
Este pai excêntrico surge para passar alguns dias com a filha. O universo empresarial da moça é sério e anódino. Ele chega para quebrar os gélidos paradigmas profissionais (e afetivos) dela. Winfried pergunta se Ines é feliz, ela não sabe o que dizer. Ela se incomoda com a presença do pai, que parece saber apenas se comunicar por meio de piadas. O excêntrico progenitor então simula a volta à Alemanha. Mas ele fica, na pele de um hilário alter ego, o Toni Erdman do título, disfarçado com uma esdruxula peruca e falsos dentes à moda de corcunda de filme de horror, autoapresentado como embaixador da Alemanha, embora nada convincente. Daqui por diante, esta figura inusitada e esta filha perplexa vão modular o filme em reuniões, coquetéis, apresentações de trabalho e festas há um cover de Whitney Huston feito pelos dois que é absolutamente apaixonante, e que levantou aplausos no meio da sessão para a imprensa. Quanto mais eles se pegam, mais eles se aproximam, e mais o espectador se delicia com esta dupla amalucada. Ines começa a compreender que seu pai excêntrico merece um lugar em sua vida, afinal. E que ela mesma pode ter uma vida mais decente e digna.
Pela primeira vez em competição em Cannes, a diretora Maren Ade chega à disputa com um filme muito especial, uma absoluta surpresa de andamento absolutamente imprevisível. Sua narrativa, com mutações e revelações no decorrer, entrega uma relação paterno-filial carregada de bons sentimentos e isto em mãos hollywoodianas seria um irreprimível vale de lágrimas. Mas muito esperta, Ade faz da anarquia sua melhor arma, foge do bom-mocismo esquemático e consegue uma rara proeza: tudo o que se vê parece não ser um roteiro filmado, mas as coisas da vida registradas por um olhar atento e agudo. Comédia e drama de situações, e não meramente de piadas, energizada pelo talento de seus dois protagonistas, "Toni Ederman" tem uma catártica sequencia final de antologia, a festa de aniversário de Ines. Nunca, em vinte anos de Cannes, testemunhei (e fui um feliz cumplice) uma sucessão de pródigas gargalhadas como neste desfecho com perfeito sentido de timing e inspiração.
POESIA FEITA DE IMAGENS (VICE VERSA?)
Os Estados Unidos não poderiam estar melhores representados, em busca da Palma. Assim como o candidato alemão, "Paterson", de Jim Jarmusch, é outro que pode levar daqui recompensas. O mínimo que se dizer é que é um filme idiossincrático, porque seu diretor assim é são deles as avis raras (e cults, invariavelmente) "Daunbailó", "Estranhos no Paraíso", "Flores Partidas". E que se tome isso como o inicio do elogio para uma obra irretocável do ponto de vista pessoal e transferível (felizmente), pequena na aparência com seus pequenos recursos materiais, mas enorme em sua ambição em busca do lirismo, em busca da representação plástica das raízes do verso.
De que maneira a linguagem visual pode representar a criação da poesia escrita?
Jarmusch não só propõe esta utopia como a transforma em epifania contemplativa, em quimera de rara beleza. O Patterson do filme é um motorista de ônibus na cidade de Paterson, Nova Jersey. Apesar do corpo atlético do (ótimo) ator Adam Driver ocupar o personagem, ele é frágil e sutil, embora ex-marine detalhe essencial para compreender sua personalidade reservada. Vive um casamento harmonioso à base de amor profundo. Sua mulher se ocupa da casa, do bulldog do casal e faz cupcakes. Paterson viaja na imaginação e escreve versos diariamente. O filme tem uma estrutura que apela constantemente à "rima-visual-que-não-rima". E para melhor escrever sobre ele seria preciso ter à mão (aos olhos) as imagens que Jarmusch imprimiu no suporte digital.



