A cachaça não foi inventada no Brasil, mas está ligada aos melhores e piores momentos da nossa história. Era moeda de troca entre escravos e senhores desde o período colonial e foi citada até na carta de Pero Vaz de Caminha, o primeiro documento oficial sobre o País. Desde então, foi cantada em verso e prosa pela nossa literatura e música, das mais eruditas às populares, além de ser a base de nosso drinque mais famoso, a caipirinha. Pensando nisso, o ator e diretor Hugo Carvana, apreciador da bebida e membro da Academia Brasileira da Cachaça, vai contar sua história em quatro programas de televisão, com 50 minutos cada, abordando a história e os casos que envolvem a bebida.
''Existe uma cultura em torno da cachaça, crenças populares, hábitos e manias dos bebedores, além de uma história entrelaçada com os principais fatos de nosso passado. Os quatro programas partem dessa reflexão, e cada um terá um tema'', adianta Carvana, que já dirigiu seis longas-metragens de ficção (o mais recente, do ano passado, é ''Apolônio do Brasil''), mas é estreante em documentário. ''Na verdade, serei um mestre de cerimônia para apresentar as pessoas envolvidas com sua produção e seu consumo. Apesar da minha experiência na ficção, nunca cogitei de fazer um filme desses tendo a cachaça como tema porque seria preciso inventar uma trama e a bebida ia ficar num segundo plano.''
A série de quatro programas tem como título ''A Danada da Cachaça'', verso da marchinha de carnaval. Está inscrita nas leis de incentivo à cultura estaduais e federais (Rouanet e do Audiovisual) com um orçamento de R$ 800 mil e o roteiro já está em andamento, a cargo do escritor Eric Nepomuceno. ''Setenta por cento da pesquisa já está pronta. Cada programa abordará um tema, a história da cachaça, a cachaça na literatura e na música popular, a produção atual e a bebida na culinária brasileira e seu papel nas religiões que aqui surgiram'', conta o diretor, que só quer fugir de sua associação com o alcoolismo. ''Não vou mostrar esse bode porque a cachaça não é uma bebida embriagante. Quem gosta mesmo, toma com moderação e não para ficar bêbado.''
Ele sabe o que fala. Como membro da Academia da Cachaça, convive com apreciadores ilustres como Paulinho da Viola (''o bebedor mais elegante de todos'', diz Carvana), Aldir Blanc e Paulão Sete Cordas, músicos que já cantaram a caninha, não por mera coincidência. ''A Academia é um ponto de encontro entre amigos e o patrono da cadeira que ocupo é Antônio Maria, ou seja, estou realmente bem cercado nesse meu hábito'', brinca Carvana. Mas ele não pretende ficar só nos famosos consumidores. ''Vou viajar pelo Brasil, mostrando onde se produzem as melhores cachaças, como a Januária, que vem da cidade mineira do mesmo nome, às margens do Rio São Francisco.''
Carvana pretende fazer muitas entrevistas, mas não descarta dramatizar passagens interessantes da história da cachaça, quando os documentos visuais forem escassos. Ele pretende falar da bebida feita artesanalmente e a produzida para exportação. ''Prefiro a primeira, vinda de alambiques artesanais, mais para o deleite do produtor que para dar lucro com a venda. Essas geralmente são mais puras, pois não misturam canas de procedências diferentes'', ensina ele. ''Não que não tenhamos boas cachaças comerciais, mas estas vêm de alambiques variados, são misturadas e quem conhece bem nota a diferença. Mas é claro que vou abordar também a importância da cachaça em nossa economia, ainda mais agora que ela começa a ser exportada.''

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