São Paulo, 13 (AE) - "Velvet Goldmine", de Todd Haynes
tem tudo para ser o filme cult do ano. Ou pelo menos um deles. Haynes mergulha no mundo ambíguo do glam rock do começo dos anos 70, o que já é um trunfo a seu favor, um cartão de visitas e atração para mais de uma tribo urbana contemporânea. Aliás, quando foi apresentado na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em sessão única, atraiu uma multidão de descolados paulistanos. Tem feito sucesso semelhante pelo mundo e é detentor de méritos que justificam esse fascínio entre seu público segmentado.
Além de trafegar na pura ficção, recriando a vida de um suposto ídolo pop, Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers), o faz com armas de um clássico como "Cidadão Kane", de Orson Welles. "Kane" mostrava a tentativa (frustrada) de resgate da vida de um magnata das comunicações, insipirada em William Randolph Hearst. "Velvet Goldmine" põe também em ação um jornalista, Christian Bale (Arthur Stuart), na tarefa de reconstituir um episódio escabroso na carreira do pop star, quando Slade teria simulado o próprio assassinato para fins promocionais.
Assim como "Cidadão Kane", "Velvet Goldmine" é também um filme à clef - ficcional, ma non troppo, e remete a personagens reais. Hearst, num caso, David Bowie no outro. Haynes tenta ainda reforçar a aproximação com seu filme-modelo com cenas-chaves, decalcadas do original. Como em "Kane", o jornalista de "Velvet Goldmine" visita um interno em uma casa de saúde atrás de informações sobre seu personagem. Depois, encontra-se num bar com a ex-mulher do ídolo (Toni Colette), em outra cena abertamente clonada de Welles. E por aí vai. Aliás, "Kane" é referência principal, mas não a única.
Típico exemplar pós-moderno, "Velvet Goldmine" encontra sua originalidade no diálogo com outras obras, como "Laranja Mecânica" e o longínquo "Os Guarda-Chuvas do Amor". Uma estética de colagem que, no caso, não lhe cai mal. Isso porque "Velvet Goldmine" parece mesmo um sonho, quer dizer, uma formação dotada de um sentido a ser encontrado e composta de fragmentos. Como tal, pede-se ao espectador que, mais do que de hábito, suspenda a incredulidade e mergulhe no mundo de fantasia que está sendo proposto. Nesse mundo, vale tudo e até mesmo um arco temporal que une Oscar Wilde a Brian Slade.
A costura é feita por meio de um broche simbólico, que passa de um artista a outro. Como se Slade, depois de Wilde, tivesse recebido o toque da graça, mas, como seu antecessor, devesse pagar o preço do preconceito contra uma sexualidade, digamos assim, heterodoxa. Preço menor, é bem verdade, na Inglaterra pós-anos 60 que na época vitoriana. Wilde, lembre-se, chegou a ser mandado para a prisão acusado de ter mantido um caso homossexual.
Oscar Wilde funciona como recurso conceitual na narrativa de Haynes. Isso porque "Velvet Goldmine", no fundo, procura uma utopia, a do exercício da sexualidade sem limites, sem tabus. Por isso Slade é um bissexual assumido, casado, mas apreciador de rapazes. Seu caso com o roqueiro da pesada Curt Wild (Ewan McGregor) relembra o de Bowie com Iggy Pop e, claro, o de Wilde com lord Alfred Douglas. Mas seria um engano dizer que "Velvet Goldmine" se esgota no filão do amor que não ousava dizer seu nome, como se falava no tempo de Wilde. Ele é também, talvez sobretudo, um retrato fashion da ressaca política dos anos 60.
A tribo de "Velvet", os seguidores desse ídolo fake chamado Brian Slade, está a anos-luz da juventude politizada da década anterior. Também coloca-se longe dos hippies e da ingenuidade do flower power. Instala-se naquele momento, mais hard, mais rigoroso em certo sentido, da sexualidade discutida como limite, do som colocado no limiar do suportável, da vida por um fio. Nada disso é dito de maneira nostálgica, mas alguma saudade impregna o filme. Haynes não viveu esse tempo. Era garoto no começo dos anos 70. Mas parece dizer que havia lá, naquela verdade terminal do sexo, das drogas e do rock-n-roll algo que se perderia depois no mais acomodado mundo moderno. A discussão vai por aí.
O filme não faz tanto a apologia de uma época que praticava a ruptura, mas a crítica a essa outra, a da conciliação aparente, que em nome da paz esvazia conflitos e apaga diferenças.

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