'Veludo Azul' é lançado em DVD
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de junho de 2002
Luiz Carlos Merten<BR>Agência Estado 
No volume dedicado a Veludo Azul, na Coleção Grandes Filmes, da Rocco e do British Film Institute, há mais adjetivos elogiosos ao cult de David Lynch do que em qualquer livro da série. O maior, o melhor, o mais inovador. Veludo Azul, segundo o autor, é tudo isso. Ele insiste, por exemplo, que Lynch fez o maior filme da contracultura produzido por Hollywood. Pode ser que toda essa adjetivação seja exagerada, mas Veludo Azul continua perturbador. Seu lançamento em DVD, pela MGM Home Entertainment (dia 10 de julho nas lojas), prova que a bizarrice de Lynch continua atual.
Há 16 anos ele já se obstinava em mostrar que há algo de podre na América. Nunca desistiu de sua tese e, aliás, só tem encontrado elementos para fortalecê-la. Twin Peaks, Estrada Perdida, A Cidade dos Sonhos mudam para prosseguir na mesma via. Lynch investiga a linguagem, incorpora o sonho à realidade e recorre a situações mórbidas e personagens doentios para manter sua tese sempre aquecida. Em 1986, ele quis fazer de Veludo Azul um filme de quatro horas. Teve de contentar-se com as duas regulamentares. O DVD traz algumas cenas excluídas do filme. Você vai gostar de vê-las, mas não acrescentam muita coisa à compreensão do que o autor quer dizer.
Na época, era engraçado definir David Lynch como o James Stewart de Marte, como faziam os críticos e jornalistas em geral. Isso, na verdade, não quer dizer nada e o problema é que Lynch sempre foi difícil de enquadrar. É bizarro, sim, e até surreal, mas ninguém se atreveria a rotulá-lo de surrealista. E também não é um realista, embora se tenha chamado justamente assim, História Real, seu melhor filme nos últimos anos. Lynch talvez não tenha tido seguidores no cinema atual, mas influenciou meio mundo. Isabella Rossellini canta Blue Velvet em Veludo Azul. Hector Babenco pode jurar que não, mas quando Xuxa Lopes canta Foolish Heart em Coração Iluminado a ponte é imediata com Lynch.
Isabella Rossellini era a grande novidade de Veludo Azul. Filha de Roberto Rossellini e Ingrid Bergman, carregava o peso de dois nomes míticos da história do cinema. Herdou deles o gosto pela ousadia. Não seriam muitas as atrizes a encarar o desafio de Veludo Azul. O filme possui mais cenas fortes do que qualquer outra produção americana do período. Na mais inquietante, Isabella, como Dorothy Vallens, cantora de uma casa noturna na qual canta Blue Velvet , enfrenta o ritual sadomasoquista de um homem meio demente chamado Frank (e interpretado pelo ator cult Dennis Hopper). A cena é radical. Na loucura filmada por Lynch, Dorothy e Frank entregam-se a um jogo perigoso (e incestuoso), pois o homem age ora como filho depravado, ora como pai despótico. Nada mais lynchiano.
A trama de Veludo Azul tem início quando um rapaz encontra num terreno baldio da cidadezinha de Lumberton uma orelha decepada. Lumberton parece o lugar mais saudável do mundo, a típica representação do sonho americano. Casas brancas, jardins bem cuidados. Aquilo tudo é só aparência. Ao investigar a quem pertence a tal orelha, o herói, Jeffrey (Kyle MacLachlan), que possui uma namorada (Laura Dern), chega a Dorothy e Frank. E aí o sonho americano vai para o ralo. Ou, mais exatamente, para o esgoto. Talvez fosse moralismo dos críticos, querendo enquadrar David Lynch como o cineasta que apontava o dedo acusador contra a podridão da América. Talvez não fosse realmente esse o objetivo, mas Veludo Azul prestava-se a ele e isso é que era importante. Lynch, em Veludo Azul, filmou a cloaca. E fez isso numa produção A de Hollywood (que foi até indicada para o Oscar).
Lynch sempre foi atraído por bizarrices. Em Eraserhead, mostrou um gelatinoso bebê-embrião. Em O Homem-Elefante, era um homem deformado, exibido como atração em teatros e feiras. Em Duna, baseado na série cult de ficção científica de Frank Herbert, pústulas invadiam as cenas. Em Veludo Azul havia a orelha decepada e o sadomasoquismo de Dorothy e Frank. Os outros filmes até que visualizaram menos a bizarrice, procurando apresentá-la por meio de um tom, uma atmosfera. As obsessões já existiam antes. Foram cristalizadas a partir desse filme. A câmera invade a orelha decepada. Ouvem-se sons estranhos. A pesquisa sonora faz parte das obsessões de Lynch. Veludo Azul não é um filme só para ver, é para ouvir, também.
Serviço
Veludo Azul (Blue Velvet). EUA, 1986. Direção de David Lynch, com Isabella Rossellini e Dennis Hopper. DVD da MGM Home Entertainment, a partir do dia 10 de julho nas lojas. Preço: R$ 41,50


