Existem duas novelas nos bastidores de "Velho Chico". De um lado, está a trama forte, rural e tradicional, na qual quem manda é a assinatura de Benedito Ruy Barbosa e sua prole. Do outro, reside o viés artístico, poético e por vezes exagerado com que o diretor Luiz Fernando Carvalho enxerga o texto da família Barbosa. Durante a primeira longa fase da trama, essas duas novelas conviveram muito bem. Com um olhar apurado, Carvalho valorizou a história contada por Benedito e entregou cenas que deixam as tramas anteriores do horário "no chinelo".

Porém, "Velho Chico" nasceu mesmo para ser um híbrido entre "Renascer" e "O Rei do Gado", sucessos da parceria entre o autor e o diretor, trabalhos que primaram por primeiras fases exuberantes, mas que conseguiram soar urbanas e contemporâneas sem grandes firulas nos capítulos da segunda parte. O que a Globo não contava é que, passado tantos anos, Benedito continua o mesmo, mas a direção de Carvalho é totalmente diferente da que o público conferiu ao longo dos anos 1990.

Não chega a ser uma surpresa a estranheza com que parte da Globo e dos telespectadores veem na atual novela das nove. O público se acostumou a ir pelo caminho óbvio e mais fácil. Tramas cada vez mais urbanas, rápidas e realistas criaram uma verdadeira patrulha sempre de olho no que é verossímil ou não. Na segunda fase, "Velho Chico" continua contando com caprichos técnicos impecáveis, grandes cenas a favor do texto e atuações renovadoras de nomes já conhecidos, casos de Camila Pitanga e Marcos Palmeira, ao frescor de novidades como Lucy Ramos e Gabriel Leone. No entanto, não faltam reclamações para o suor cenográfico presente nas sequências e caracterizações fora dos padrões, como os vestidos usados por Maria Tereza e Iolanda, personagens de Pitanga e Christiane Torloni, respectivamente.

Isso sem falar na peruca utilizada por Afrânio, de Antonio Fagundes. Inspirada em alguns líderes das Américas, a vestimenta do anti-herói vivido pelo ator funciona na tentativa do personagem simbolizar um Donald Trump do Nordeste, com roupas estranhas e acessórios exagerados que tentam justificar seu poder. Algo que o público já viu em muitas histórias de Aguinaldo Silva e Dias Gomes, mas que agora se recente pela falta de realidade. É daí também que o diretor e a equipe de caracterização conseguiram buscar outros rumos para a atuação do ator, já marcada por outros coronéis.

Palco de grandes atuações, "Velho Chico" é o encontro de um texto comum e já conhecido do público com uma direção inventiva e disposta a entregar outras referências musicais e visuais, uma novela que, para o bem ou para o mau, chama e merece atenção.

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